As coisas não andam bem no Afeganistão. Em uma admissão desconcertante de que centenas de milhões de dólares gastos na tentativa de erradicar o cultivo de papoulas do país conseguira pouca coisa, o Escritório da ONU Contra as Drogas e o Crime (ONUDC) anunciou no sábado [2] que o cultivo afegão de papoulas deste ano teve uma alta de “assombrosos” 60% sobre o ano anterior e renderá um recorde de 6.100 toneladas neste ano, levando a um excedente global no mercado negro da heroína.
O ópio é a espinha dorsal da economia afegã, respondendo por algo entre 35% e 50% do produto interno bruto, e o ópio afegão é a espinha dorsal do tráfico global em narcóticos, respondendo agora por 92% da produção global ilícita total, de acordo com o UNODC.

“As notícias são muito ruins. Hoje, na frente da papoula em algumas das províncias do Afeganistão, enfrentamos um estado de emergência”, disse o diretor do UNODC, Antonio Maria Costa, em entrevista coletiva em Cabul após apresentar os resultados da sondagem do cultivo ao Presidente Hamid Karzai. “Nas províncias do sul, a situação está fora de controle”.
Na província sulista de Helmand, presente germinal de atividade do Talibã, o cultivo teve uma alta de assombrosos 162% e responde por 42% do cultivo afegão total de papoulas, disse o UNODC. Costa disse à entrevista coletiva em Cabul que a OTAN deve aumentar o seu papel no combate ao tráfico de ópio, especialmente no sul, onde está ajudando a fomentar a insurgência do Talibã.
“Precisamos de medidas muito mais fortes e enérgicas para melhorarmos a segurança ou temo que vamos enfrentar uma situação dramática de fracasso em regiões, distritos e talvez até províncias no futuro próximo”, disse Costa.
Mas, embora no fim desta semana os comandantes da OTAN tenham pedido urgentemente mais tropas no sul, eles têm pouco interesse em lutar a guerra às drogas. A posição oficial da OTAN é que a sua ordem é de manutenção da estabilidade e da paz, não antinarcóticos.
Mas, há a pressão dos estadunidenses e britânicos que tentam fazer duas guerras simultaneamente, a guerra contra o terror e a guerra contra as drogas. O alto oficial antidrogas estadunidense no Afeganistão, Doug Wankel, disse em entrevista coletiva que a necessidade era urgente. “Este país pode ser derrubado por este problema das drogas”, disse aos repórteres. “Temos visto o que pode sair do Afeganistão, se voltarmos ao 11 de Setembro. Obviamente, os EUA não querem ver aquilo de novo”.
Porém, os analistas consultados pela Crônica da Guerra Contra as Drogas advertiram que tentar esmagar a economia do ópio e lutar contra o Talibã ao mesmo tempo é uma receita para o desastre. “Paradoxalmente, quanto mais forem atrás da produção de ópio, mais eles fortalecem o laço entre o Talibã e a população e os traficantes”, disse Vanda Felbab-Brown, pesquisadora na Instituição Brookings e na Faculdade John F. Kennedy de Assuntos Governamentais da Universidade de Harvard. “É um dilema difícil. Não pode haver progresso fundamental seja no problema dos narcóticos, seja na estabilização em geral, a menos que lidemos com esta insurgência”, disse ela à Crônica.
“Agora, o Talibã ficou mais integrado na produção no sul mais uma vez”, explicou Felbab-Brown. “Após 2001, eles foram expulsos do tráfico de drogas porque estavam em fuga e porque as forças estadunidenses e da coalizão não estavam indo atrás do tráfico de drogas. Mas agora, os traficantes precisam de alguém para protegê-los, para assustar as equipes de erradicação e a presença do estado, e o Talibã está lhes dando esta proteção. Também está explorando a erradicação”, disse a especialista em drogas ilícitas e o conflito militar. “Eles estão entregando panfletos que dizem coisas como ‘Somos o Talibã. Não é horrível que Karzai, sob pressão dos infiéis estrangeiros, esteja tentando destruir os nossos cultivos? Aí está o nosso telefone celular. Ligue para gente’. Então, agora o Talibã não está só lucrando financeiramente, também está conseguindo a fidelidade da população ao proporcionar-lhe proteção”.
“As coisas estão um pouco fora de controle porque muitas coisas que acontecem no Iraque e no Oriente Médio tiram a atenção das superpotências ao Afeganistão, então os intrusos têm mais chances de acelerarem as atividades destrutivas e ilegais deles”, disse Raheem Yacer, vice-diretor do Centro de Estudos Sobre o Afeganistão [4] na Universidade de Nebraska-Omaha. “Ao mesmo tempo, a coalizão e o governo Karzai estão ocupados demais lutando contra o Talibã e a Al Qaeda para se concentrarem na erradicação”, disse ele à Crônica.
“O Talibã está adentrando áreas em que há cultivo de papoulas e eles recebem o apoio dos agricultores cujas plantações foram destruídas ou ameaçadas”, prosseguiu Yaseer. “Assim, os traficantes e cultivadores têm um pouco mais de liberdade que costumam ter. Por isso o negócio está florescendo para os traficantes de drogas. Há frentes demais a lidar e a erradicação é só uma frente”.
É difícil conseguir soluções. “Ninguém sabe qual é a resposta”, reconheceu Yaseer. “Daqueles bilhões de dólares que eles estão gastando, precisam usar parte disso para compensar os agricultores e criar outros empregos e projetos. As pessoas nas províncias não têm emprego e passam fome e os terroristas oferecem dinheiro para que se juntem a eles. As pessoas se voltam para o Talibã, os terroristas e os narcotraficantes porque aí está o dinheiro. O governo e a coalizão não podem competir com o dinheiro que os narcotraficantes oferecem. E não ajuda em nada que exista tanto nepotismo e envolvimento de funcionários importantes no tráfico. Isso só dificulta mais a imposição das leis sobre as drogas. Muitos funcionários do governo estão apoiando o tráfico, não combatendo-o”.

Para Felbab-Brown, tudo se trata de fazer a contra-insurgência direito. “É crucial aumentar o número das forças, aumentar a presença de tropas e a entrega de ajuda”, disse ela. “É difícil entregar ajuda durante uma insurgência ativa, mas é vital. Também precisamos de paciência, especialmente na questão dos narcóticos. A grande pressão em prol da erradicação prematura que vem de Washington e das organizações internacionais precisa ser resistida. Precisamos de mais dinheiro, mais tropas, mais desenvolvimento. Esta comunidade internacional está disposta a proporcionar estes recursos?”
Ser paciente com a economia do ópio é aproximar-se da abordagem certa, disse Ted Galen Carpenter, um analista de relações exteriores e políticas de drogas junto ao Instituto Cato [5], de tendência libertariana. “A única solução é a que ninguém em qualquer cargo de influência em Washington ou nas capitais da OTAN quer considerar – a legalização das drogas”, disse ele à Crônica da Guerra Contra as Drogas. “Isso tiraria os lucros do mercado negro do tráfico de drogas. É a solução final. Se eles não pensarem na legalização, o mínimo que podem fazer é vista grossa quando se trata do tráfico de drogas. Isso funcionou no Peru nos anos 1980, quando os generais peruanos resolveram que ignorar o cultivo de coca acabaria com o apoio ao Sendero Luminoso. Algo similar precisa acontecer no Afeganistão, quer eles admitam isso ou não. Se falam sério em prevenir mais rebotes do Talibã e da Al Qaeda, precisam se livrar da guerra às drogas”.
Tentar fazer tanto a guerra contra o terror quanto a guerra contra as drogas solapa as políticas estadunidenses no país, debateu Carpenter. “Há uma inconsistência fundamental na estratégia estadunidense de construção do país no Afeganistão. A meta principal é solapar o Talibã e a Al Qaeda, mas o problema é que se eles forem atrás do tráfico de drogas, alienam uma grande parte da população e fortalecem o apoio ao Talibã. Mesmo tentar processar a guerra contra as drogas ali solapa a meta principal dos EUA no Afeganistão”.
O nosso grupo europeu de advocacia e desenvolvimento, o Conselho Senlis [6], tem proposto durante quase um ano que o cultivo afegão de papoulas seja autorizado, legalizado e desviado para o mercado medicinal legítimo. O Conselho Senlis foi um forte crítico das políticas ocidentais nesta semana.
“Enormes quantidades de dinheiro foram gastas em operações militares grandes e custosas, mas após cinco anos, o sul do Afeganistão é mais uma vez um campo de batalha pelo controle do país”, disse o diretor executivo do Conselho Senlis, Emmanuel Reinert, enquanto anunciava a publicação de um novo relatório sobre o renascimento do Talibã [7]. “Ao mesmo tempo, os afegãos passam fome. Os EUA perderam o controle no Afeganistão e, de várias maneiras, solapou a nova democracia no Afeganistão. Eu acho que podemos chamar isso de fracasso, e um fracasso tal que as suas conseqüências terríveis devem nos preocupar a todos. As políticas estadunidenses no Afeganistão recriaram o abrigo do terrorismo que a invasão de 2001 visava a destruir”.
Mas, a proposta de autorização do Conselho Senlis está conseguindo pouco respeito ou tração e provavelmente não vencerá, disse Yaseer. “Não acho que a proposta do Conselho chegue muito longe”, disse Yaseer. “Há todos os tipos de oposição a qualquer legalização. Os grupos religiosos não a apoiarão, os legisladores não a apoiarão. Também há questões sérias sobre se isso simplesmente abriria mais locais de cultivo e tráfico”.
Perguntas, perguntas. Há muitas perguntas no Afeganistão, mas poucas boas respostas.