Maconha medicinal: Convidado por “grupo pró-família”, chefe de ciência do secretário antidrogas depõe em audiência da Câmara no Tennessee

Um comitê da Câmara do Tennessee que pondera um projeto sobre a maconha medicinal ouviu uma série de testemunhas, muitos deles hostis, inclusive o Dr. David Murray, chefe de ciência do Gabinete de Política Nacional de Controle das Drogas (ONDCP, na sigla em inglês), em uma audiência nesta semana. Grande parte da oposição foi organizada por uma organização cristã “pró-família” que normalmente se inquieta com questões como a adoção de parte de casais homossexuais e mensagens anticristãs sutis em filmes. Os reformadores também estavam presentes, entre eles Nathan Miller, o analista legislativo do Marijuana Policy Project, e Bernie Ellis, epidemiologista e pesquisador da toxicomania da Comarca de Maury, ele mesmo um paciente de maconha medicinal.

A audiência aconteceu na terça-feira perante o Comitê de Saúde e Serviços Humanos da Câmara a respeito do Projeto 486 da Câmara, defendido pela deputada Sherry Jones (D-Nashville). O projeto de lei criaria uma cédula de identidade estatal e um sistema de registro somente para pacientes terminais. Mas mesmo isso era demais para burocratas da guerra às drogas e cruzados morais.

De acordo com um informe em The Chattanoogan, Murray, o cruzado antidrogas nova-iorquino Steven Steiner e o Dr. Kent Shih, um oncologista de Nashville, que fizeram todos depoimentos contra o projeto, compareceram graças aos trabalhos do Family Action Council of Tennessee. Dirigido pelo ex-senador estadual David Fowler, o conselho diz que promove “a cultura que valoriza a família tradicional pelo bem comum” e que está geralmente preocupado por se opor aos direitos reprodutivos, restringir negócios para adultos e lutar contra a homossexualidade.

“Agradecemos a disposição destes indivíduos a vir, às próprias custas, para conscientizar os integrantes do comitê a propósito do que realmente está em jogo no debate sobre a ‘maconha medicinal’”, disse Fowler. “Tendo visto a minha própria mãe sofrer e morrer de câncer, sei o quanto todos nós desejamos que haja alívio para aqueles que amamos. Mas, não podemos permitir que a compaixão do estadunidense médio supere a boa ciência e a boa medicina. Também não podemos permitir que a compaixão seja manipulada por aqueles que têm como agenda primordial a legalização da maconha e até de outras drogas”.

Pior ainda, disse Fowler, o projeto “resultaria inevitavelmente em mais consumo de maconha em público e caçoaria das nossas leis criminais contra as drogas. O que tem sido observado em outros estados é que a maconha fica incontrolável na sociedade geral mesmo quando está restrita a ‘consumos medicinais’. Como um indivíduo pode produzir até 13.000 baseados ao ano conforme este projeto, é ingenuidade achar que esses baseados não acabam nas mãos erradas”.

Fowler também citou a cena aberta de maconha medicinal da Califórnia para dar a entender que o projeto do Tennessee tornaria a imposição da lei criminal a respeito da maconha impraticável. “Em North Hollywood, agora há mais clubes de maconha medicinal do que Starbucks. Na verdade, o co-fundador do referendo californiano acerca da maconha medicinal disse que a maior parte desses dispensários na Califórnia nada mais é formada por ‘traficantes com vitrines’”, acrescentou, citando as infames palavras de Scott Imler.

Miller disse aos membros do comitê que 12 estados têm leis sobre a maconha medicinal e que não havia provas de que “passam a idéia errada” aos jovens. Em 11 desses estados, apontou Miller, o consumo de maconha entre adolescentes caíra.

Ellis, que padece de artrose e fibromialgia e foi condenada por acusações federais de delitos de drogas por cultivar maconha medicinal para si mesmo e proporcioná-la gratuitamente a quatro pacientes terminais, disse que a maconha já foi um remédio importante antes de ter sido proibido há 70 anos. Ele leu recomendações de pacientes de câncer e AIDS que disseram que a maconha os ajudou a aliviar o sofrimento deles. “Não estaríamos aqui instando vocês a tornarem a maconha medicinal legal de novo no estado se ela não fosse segura e eficaz”, disse Ellis.

Murray do ONDCP disse aos legisladores que não deveriam burlar a Administração de Alimentos e Drogas. “Fico preocupado que estejamos fazendo mais mal do que bem com estas medidas”, disse.

O Dr. Shih, que pratica medicina em Nashville, disse ao comitê que a maconha é “inviável” e que outros medicamentos legais são igualmente eficientes. “Acho que há fármacos mais seguros”, disse.

William Benson, vice-diretor da Agência de Investigação do Tennessee, também depôs. Ele disse que o projeto de lei pode apresentar complicações para as agências de segurança porque o Tennessee é um destacado produtor de maconha.

A deputada Jones, por sua vez, foi atrás da caracterização de Fowler de que o projeto dela era uma fachada para a legalização. “Não se trata de tornar a maconha legal pelo estado afora. Isto serve estritamente para razões médicas, apenas para ajudar as pessoas a se sentirem melhor”, disse Jones. “Qualquer sugestão de que possa haver algo escondido na legislação é um absurdo”.

O ex-senador Steve Cohen (D-Memphis), agora integrante da Câmara dos Deputados dos EUA, tentou em vão aprovar um projeto de maconha medicinal nos anos anteriores. O projeto de Jones provavelmente não chegará a lugar algum neste ano, apesar de que dissesse que estava aberta a mudanças que possam torná-lo mais aceitável politicamente no ano que vem. Visto que há mobilização dos grupos “pró-família” e participação da secretaria antidrogas, haverá uma luta difícil no Volunteer State. O secretário antidrogas já perdeu antes, apesar dos pesares, então, fique ligado.

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