Na quinta-feira passada, os funcionários municipais de São Francisco deram um primeiro passo provisório para inaugurar o primeiro injetódromo para consumidores de drogas dos EUA. Em uma tentativa de reduzir o alto número de overdoses fatais da cidade e diminuir a proliferação de doenças contagiosas pelo sangue como o HIV e a hepatite C, a Secretaria de Saúde Pública da cidade colaborou com uma coalizão de grupos sem fins lucrativos dos setores da saúde e do serviço social para apresentar um fórum de um dia inteiro sobre os injetódromos, como funcionam e como podem ser estabelecidos.

O consumo de drogas injetáveis também é uma questão de qualidade de vida para negócios e moradores em áreas da cidade como o Tenderloin, onde a injeção em público não é rara e seringas contaminadas podem ser encontradas pelas ruas. O bairro, centro de serviços para moradores extremamente pobres, é mencionado freqüentemente como possível localização para um injetódromo.
Os injetódromos funcionam em umas 27 cidades em oito países europeus e na Austrália e no Canadá também. Têm demonstrado reduzir overdoses, a partilha de seringas e a proliferação de doenças, assim como atrair alguns usuários ao tratamento da dependência química. – tudo isso sem causar aumento nem no consumo de drogas nem na criminalidade nem nos demais distúrbios sociais.
O simpósio foi co-patrocinado pela Harm Reduction Coalition, a Drug Policy Alliance e a Fundação AIDS de São Francisco e foi organizado por um consórcio local de grupos comunitários conhecido como a Alliance for Saving Lives. Esse agregado amplo inclui funcionários da saúde, servidores, juristas, usuários de drogas injetáveis e pesquisadores.
“Manter a conversação hoje nos ajudará a saber se esta é uma maneira de reduzir os danos e melhorar a saúde da nossa comunidade”, disse Grant Colfax, diretor de prevenção ao HIV da Secretaria de Saúde Pública de São Francisco.
O Insite de Vancouver, o único injetódromo na América do Norte, serviu de modelo para um possível programa semelhante em São Francisco. Tanto o Dr. Thomas Kerr do Centro de Excelência em AIDS da Colúmbia Britânica, que avaliou o Insite, quanto a gerente de programa da instalação, Sarah Evans, se dirigiram ao fórum acerca de suas experiências.
Evans descreveu a instalação do Downtown Eastside de Vancouver como um lugar descontraído em que os usuários de drogas podem entrar e injetar em um ambiente seguro e esterilizado sob supervisão médica, logo relaxar em uma sala de “descanso” em que são observados. “Se parece muito com um salão de beleza”, disse Evans do espaço barulhento. “Se fosse um restaurante, estaríamos tendo lucro”.
Embora o Insite tenha presenciado umas 800 overdoses, disse Kerr, nenhuma delas foi fatal por causa da supervisão médica disponível no lugar. A sua pesquisa descobriu aumentos em dependentes que procuram tratamento e diminuições em seringas abandonadas, partilha de seringas, criminalidade relacionada com as drogas e demais problemas desde que a clínica foi inaugurada há três anos, disse. Essas descobertas dão a entender que vale a pena fazer isso em outros lugares, apesar das críticas que atrairá, disse Kerr.
Porém, embora a ciência pareça estar do lado de tais instalações, a realidade política é outra coisa. O gabinete do prefeito Gavin Newsome de São Francisco disse que ele não apóia os locais de injeção segura e, até esta semana, até os porta-vozes da Secretaria de Saúde Pública estavam de boca fechada. “Não vamos conversar mais com a mídia”, disse Colfax na terça-feira em resposta a perguntas sobre o que vai acontecer a seguir.
Embora tenha havido inquietação na comunidade, a única reação manifesta proveio de Washington, DC, onde um senador, o republicano James DeMint (SC), apresentou uma emenda que cortaria verbas federais para a saúde para qualquer municipalidade que inaugurar um injetódromo, e onde o Gabinete de Política Nacional de Controle das Drogas (ONDCP, sigla em inglês) atacou a idéia através da imprensa e do seu blog chamado Pushing Back.
Bertha Madras, vice-diretora de redução da demanda do ONDCP, disse à Associated Press que o fato de que a própria idéia estivesse sendo discutida era “desconcertante” e uma “política pública ruim”. De acordo com ela: “A filosofia subjacente é: ‘Aceitamos a dependência química, aceitamos as coisas como estão’. Esta é uma forma de desistir”.
Mas Hilary McQuie, diretora da região oeste da Harm Reduction Coalition e uma das forças motrizes por trás do esforço por um injetódromo em São Francisco, disse que não estava preocupada com nenhum dos oponentes de DC. “A medida de DeMint é uma reação exagerada e precipitada que não vai dar em nada”, previu, “e, quanto ao ONDCP, bom, nem vou debatê-los. Não é da conta deles; é uma questão municipal, não nacional”.
É uma questão local em que McQuie e os demais estiveram trabalhando pacientemente durante algum tempo. “Iniciamos a Alliance for Saving Lives há cerca de um ano”, explicou. “Em sua maioria, são agências que trabalham com usuários de drogas e estivemos nos reunindo mensalmente. Mantivemos algumas conversações discretas com a Secretaria da Saúde e decidimos que chegou a hora de darmos o próximo passo”.
Agora, chegou a hora dos partidários conseguirem mais apoio comunitário para um injetódromo, inclusive convencendo o prefeito e o Conselho de Supervisores. Mesmo com a ciência do lado deles, têm bastante trabalho a fazer.
“Conhecemos as questões e a ciência”, disse Randy Shaw, um antigo ativista comunitário que colabora nas questões dos sem-teto no Tenderloin, “mas ninguém quer mais destes tipos de instalações”. “Por que as pobres pessoas do Tenderloin deveriam ter que conviver com todos estes problemas? Há viciados no Golden Gate Park, há viciados no SOMA, há mais narcotráfico na estação BART da Rua 16 do que em qualquer parte do Tenderloin”, disse. “Se alguns bairros quiserem aceitá-lo, ótimo, só não o queremos no Tenderloin”.
Funcionários municipais têm transformado o bairro em “uma zona de contenção”, denunciou Shaw. “Já temos clínicas de metadona, trocas de seringa, programas de alimentação, albergues, programas de tratamento da dependência química. Agora nem sequer pensam em pôr coisas em outros bairros”. Alguns ativistas querem transformar o Tenderloin em Hamsterdã, o bairro industrial convertido em uma zona livre de tráfico de drogas n'A escuta [The Wire], o programa da HBO, disse Shaw. “Mas somos um bairro residencial”.
“É polêmico”, reconheceu o diretor-executivo do Projeto de Desenvolvimento Econômico do Tenderloin, simpatizante da idéia. “Algumas pessoas acham que o Tenderloin já tem uma concentração alta demais destes tipos de serviços, enquanto que outros acham que este tipo de instalação daria licença aos usuários de drogas em vez de acabar com a dependência das drogas no Tenderloin”.
Mas, Davis tem uma perspectiva diferente. “Olho para o Tenderloin e vejo que a nossa cidade, a nossa sociedade já está permitindo o consumo aberto e o tráfico de drogas”, discutiu. “A idéia por trás do injetódromo é tirar alguns destes usuários da rua e botá-los para dentro, onde possam ter acesso a serviços, e também deter a partilha de seringas e a proliferação do HIV e da hepatite C. Vejo pouquíssimos benefícios possíveis resultando disto”.
Assim começa a discussão pública em São Francisco. Haverá um longo caminho sinuoso entre aqui e a existência real de um injetódromo, com muito trabalho a fazer nos âmbitos de bairro, município, estado e federação. Pode levar anos, mas os partidários estão certos de que o seu dia vai chegar.
“Acho que, afinal, vamos ter um injetódromo”, previu McQuie, “mas quanto tempo isso vai demorar depende de como nos organizamos, quem está no poder e quanta pressão dos federais os detentores do poder sentem municipalmente”.


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