David Borden, Diretor-Executivo

Tudo isto ocorreu em um ano em que os crimes de sangue estavam em alta, 1,9% sobre 2005 e o segundo ano consecutivo após uma década de queda. Um número relativamente pequeno como 1,9% não deveria ser exagerado. Mas, no mínimo, a chance de reduzir os crimes de sangue pode ter sido perdida. Por que continuamos investindo recursos tão enormes na repressão às drogas se podem ser utilizados para nos proteger contra ataques - ataques de qualquer espécie?
Apesar de um pequeno aumento no preço de rua da cocaína recentemente - devido somente a dificuldades operacionais de curto prazo que o setor enfrenta -, toda esta repressão às drogas tem sido um tremendo fracasso. Na quarta-feira, assisti a uma palestra em um instituto de consultoria sobre políticas de relações exteriores de DC ministrada por Arnold Trebach, o fundador do nosso movimento moderno de reforma das políticas de drogas (ele criou a Drug Policy Foundation) e por um professor emérito da American University. A fim de levantar a questão da futilidade da guerra às drogas, Arnold ligou para um amigo seu que entende da cena da heroína antes de ir ao centro para a palestra. Ele queria saber aonde se iria agora para adquirir heroína. Afinal, faz tempo que lançou a sua obra de 1982, The Heroin Solution [A solução da heroína].
De fato, as coisas mudaram desde então, mas, apesar dos talvez milhões de prisões por delitos de drogas ao longo dos anos (10 milhões? 15? 20?), a heroína não tem uma oferta menor. Em realidade, é mais fácil obtê-la do que nunca antes, pelo menos se se conhecem certas pessoas. De acordo com Arnold, o amigo dele lhe disse que agora não haveria a necessidade de sair para comprá-la, bastaria ligar para o serviço de entrega e se você tiver quaisquer referências que respondam por você, ela seria levada até você em cerca de 20 minutos.
20 minutos. Podíamos ter terminado os nossos almoços, ouvido metade da palestra de Arnold, depois ter pedido um pouco de heroína, tê-la recebido antes do fim da palestra e tê-la consumido com a sobremesa. (É claro, por muitos motivos, que não estão limitados à nossa necessidade de trabalhar o resto do dia, não o fizemos, apenas acreditamos na palavra do amigo de Arnold de que podíamos tê-lo feito.)
O desvio de recursos de tarefas mais importantes - e mais factíveis - é só uma das muitas razões para concordar com a legalização. O dinheiro que está sendo gasto com o narcotráfico ilícito - globalmente, os cálculos estão na casa das centenas de bilhões de dólares - está fomentando a violência, tanto global quanto local. Não sei se o aumento nas prisões por delitos de drogas nos EUA desempenhou algum papel no aumento na violência no ano passado, mas, claramente, é possível. Muito mais importante do que isso, parte da violência que temos sofrido ao longo dos anos está direta ou indiretamente relacionada com o tráfico.
E o dinheiro está pervertendo a sociedade. Quantos jovens foram seduzidos a vidas de crime através da promessa que o narcotráfico aparenta oferecer? A maioria deles não acaba ganhando muito dinheiro fazendo isso. Mas, aí está, há uma perspectiva de ascensão e, dependendo do seu ponto de vista, é glamouroso e te permite ser parte de algo maior do que você mesmo. O dinheiro do tráfico também está ajudando a apoiar aqueles que querem levar a cabo atentados terroristas e, em alguns lugares, está fomentando guerras civis. Tudo isto está acontecendo porque as drogas são ilegais, não por causa de algumas propriedades intrínsecas das drogas.
Porém, será que o mundo acabaria se as drogas fossem legais? Será que tantas pessoas mais consumiriam e se viciariam em drogas que o dano seria maioria por causa disso do que da criminalidade criada pela proibição agora? Arnold disse ao público que acha que podemos idear um sistema para controlar o tráfico lícito; que não seria indevidamente difícil fazer isso (já o fazemos com as drogas atualmente legais, afinal de contas) e que "íamos sobreviver". Ainda poderíamos ajudar as pessoas que têm problemas com as drogas, podemos regularizá-las de uma série de jeitos diferentes, podemos fazer frente a esse desafio.
Em realidade, acho que o prejuízo geral que as drogas causam na saúde pública diminuiria, não aumentaria, mesmo se mais pessoas as experimentassem. Afinal, a maioria das pessoas não se autodestrói com as drogas hoje, quer sejam legais quer ilegais, apesar da sua disponibilidade generalizada, simplesmente porque não querem se autodestruir. Para aqueles que se viciarem sim em drogas como a heroína, mas que não têm uma renda pessoal muito generosa, os preços artificialmente altos das drogas que a proibição ocasiona são uma parte importante do prejuízo do vício nas vidas deles. Tanto pelo lado da saúde pública quanto pelo lado da justiça penal, acho que a legalização será, em geral, uma jogada vencedora, apesar dos prejuízos que algumas drogas possam trazer.
Pode ser difícil propor esta discussão nas esferas do poder. Arnold comentou que pelo menos oito pessoas no funcionalismo estadunidense disseram que ficariam contentes em se reunir com ele, que agradeciam pelo que estava fazendo, mas que preferiam não encontrá-lo nos seus escritórios. Queriam se reunir em um restaurante ou outro, onde, com sorte, não seriam vistos com ele, e, dessa maneira, não se meteriam em uma confusão política. Isso aconteceu há muito tempo, mas ainda é a situação atual de muitas maneiras.
Contudo, nós a propomos sim - esta organização e este boletim estão aqui, por exemplo, e o movimento está crescendo em diversidade, experiência e tamanho. Agora, chegou a hora de os líderes serem realistas - a legalização das drogas é viável e é o que se deve fazer. Então, parem de demonizá-la e comecem a falar sobre ela. Porque, às vezes, a liderança quer dizer liderar mesmo.
(Exemplares assinados dos dois livros relançados de Arnold "The Heroin Solution" e "The Great Drug War" - e também da sua nova obra, "Fatal Distraction: The War on Drugs in the Age of Islamic Terror", podem ser obtidos enquanto prêmios de filiação fazendo doações à DRCNet.)


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