Quase justo quando tomou posse no fim do ano passado, o presidente mexicano entrante Felipe Calderón tentou ganhar os favores do público mandando os militares se encarregarem das violentas e poderosas organizações do narcotráfico do país, os ditos cartéis. Agora, passados seis meses da ofensiva antidrogas de Calderón, mais de 24.000 soldados e policiais estão agindo em vários estados e cidades mexicanos, mas o número de mortes continua subindo, as drogas continuam fluindo e os mexicanos estão começando a perguntar se tudo isso vale a pena.
De acordo com as estimativas da imprensa mexicana, mais de 2.000 pessoas morreram na violência relacionada com a proibição no ano passado. Com cerca de 1.000 mortos só neste ano, 2007 está trilhando o caminho de ser o ano mais sangrento na guerra às drogas do México.

A violência entre os cartéis, as facções e os pistoleiros aguerridos chegou a níveis horrendos, com decapitações sangrentas filmadas e lançadas em páginas como o YouTube, cabeças sendo jogadas nos chãos de danceterias e cadáveres torturados abandonados às beiras das entradas como advertências exemplares aos demais.
Mas, não são só os soldados dos cartéis que estão morrendo. Dificilmente passa um dia sem que um policial seja assassinado em alguma parte do México. Às vezes, os ataques são espetaculares, como quando os pistoleiros atacaram o quartel-general da polícia de Acapulco com armas automáticas e lança-granadas ou quando os assassinatos mataram o novo diretor do centro nacional de informação contra a delinqüência em um tiroteio descarado no subúrbio exclusivo de Coyoacán na Cidade do México no mês passado.
Isso não é tudo. Só em maio, cinco soldados mexicanos, inclusive um coronel, morreram em uma emboscada em Michoacán, o estado natal de Calderón; o cadáver de um capitão do Exército foi encontrado perto da estrada que liga a Cidade do México a Acapulco e um almirante escapou por pouco de ser assassinado em Ixtapa. No início deste ano, Calderón admitiu que até ele recebera ameaças de morte dos cartéis.
Mas, esperem, tem mais. Também em maio, dúzias de pistoleiros a mando dos cartéis invadiram o município de Cananea, em Sonora, não muito longe da fronteira com o Arizona, seqüestraram sete policiais e quatro civis, provocando uma batalha que deixou um saldo de 20 mortos. O diretor da unidade anti-seqüestros e de combate ao crime organizado da polícia estadual de Coahuila foi raptado, um cadáver encontrado em Monterrey tinha uma nota que ameaçava a vida do novo procurador-geral do estado de Nuevo León e quatro guarda-costas do governador do estado do México foram mortos. Uma nota deixada com uma cabeça cortada parecia vincular as suas mortes com os cartéis irritados.
Mas, esperem, tem mais ainda. Na terça-feira passada, na cidade nortista de Monterrey, um congressista de Nuevo León, Mario Ríos, 44, foi assassinado enquanto dirigia por uma rua do centro por pistoleiros que abriram fogo contra ele de pelo menos dois carros, de acordo com o Seattle Times na quarta-feira.
Embora o governo mexicano afirme que a ofensiva está funcionando, apontando as quase mil detenções e as numerosas confiscações de carregamentos de drogas, as críticas estão crescendo. Proceso, o semanário esquerdista popular chamou recentemente a campanha de "o Iraque de Calderón". Não está sozinho, em qualquer um dos lados da fronteira.
"Não acho que esteja dando certo de jeito nenhum", disse Alex Sánchez, um analista do Conselho sobre Assuntos Hemisféricos de Washington, DC. "O problema é a maneira pela qual os cartéis estão estruturados. Tirar um cara, mesmo um cabeça, só deixa um vácuo que os demais lutam para preencher. Há um ciclo perpétuo de violência a menos que possam derrocar cada um dos membros de um cartel, dos chefões aos entregadores de drogas mais baixos", disse.
"Calderón diz que o México está vencendo, mas as políticas dele só estão perpetuando tudo isto", disse Sánchez. "Não afetou o fluxo de drogas vindas do México, então nada mudou nesse sentido. O que mudou é que a violência atingiu um novo nível; essencialmente, há uma guerra civil acontecendo entre os cartéis e o governo".
"O problema deste tipo de estratégia é que quando um destes chefões é detido, como Osiel Cárdenas do Cartel do Golfo, há um vácuo de poder dentro do cartel e nova violência já que os membros do cartel lutam para substituí-lo no topo", disse Maureen Meyer, sócia do Gabinete em Washington para Assuntos Latino-Americanos para o México e a América Central. "Precisa-se de uma estratégia diferente", discutiu Meyer. "Eles precisam pôr muito mais ênfase na reforma da polícia e há necessidade de muito mais transparência e supervisão", disse ela.
"Havia uma necessidade de ter uma resposta muito forte, dado o nível de violência que esteve se acumulando", disse Meyer. "Mas, pelo menos, parece que, em curto prazo, não produziu os resultados que as pessoas queriam. Qual é o Plano B?"
"É um grande circo", disse Mercedes Murillo, diretora da organização independente de defesa dos direitos humanos do estado de Sinaloa, a Frente Cívica Sinaloense. "Os EUA vêm e dizem 'Bravo! Olha só o que ele está fazendo!', mas ele não está conseguindo nada", disse. "Eles começaram a fazer isto sem quaisquer investigações e isso é um grande, grande problema. Não sabem onde estão os traficantes, não pegaram ninguém importante, mas agora têm soldados e tanques no centro, têm postos de controle com cem soldados ao mesmo tempo em que os pais levam os filhos deles à escola. Os soldados derrubam portas e procuram as casas sem mandados, quebram e roubas as coisas e às vezes estupram as mulheres".
E às vezes matam inocentes. Isso foi o que aconteceu no dia 02 de junho em um posto de controle militar em Sinaloa quando os efetivos abriram fogo contra um veículo que eles disseram que não parou e atirou contra eles. Mas não eram os traficantes, ninguém disparou contra eles e cinco pessoas foram mortas, inclusive a professora do ensino fundamental Griselda Galaviz Barraza, 25, e seus três filhos jovens. Os militares mexicanos prenderam os três oficiais e 16 soldados no caso, mas pouco tem sido feito para mitigar as preocupações com as violações dos direitos humanos de parte dos militares.
"E agora estão matando as pessoas", disse Murillo. "Ao invés de tirar os militares, eles deveriam estar investigando de onde vem o dinheiro. Não temos nenhuma grande indústria aqui, mas você devia ver todos os carros de luxo, as casas luxuosas, as lanchas, a joalheria. Por que não conseguem descobrir de onde está vindo o dinheiro?"
O popular colunista Sergio Sarmiento, escrevendo no diário Reforma, disse que o incidente em Sinaloa mostrava que havia inocentes sendo mortos na guerra às drogas. "A idéia de que a violência que estamos vivendo no México afeta só os traficantes e os seus chegados é uma simples mentira inventada para dar tranqüilidade à população", escreveu Sarmiento. "Estamos em uma guerra [...]. É uma contenda, quanto ao demais, na que se enfrentam dois exércitos que agem sem nenhum tipo de atenção ou consideração pela população civil".
A Comissão Nacional dos Direitos Humanos do México criticou o governo por usar os militares na repressão legal doméstica. A organização não-governamental nacional dos direitos humanos, o Centro de Direitos Humanos "Miguel Agustín Pro Juárez" também está tocando o alarme a respeito das buscas e detenções militares espalhadas em Michoacán. Os analistas estadunidenses também estão preocupados com o uso de militares.
"A presença fortíssima dos militares nestas operações nos inquietam", disse Meyer. "Embora seja compreensível, esperamos que reformar a polícia efetue uma transferência dos militares à polícia nestas operações. Atualmente, presenciamos alguns dos resultados infelizes de confiar nos militares para impor a lei. O que aconteceu em Sinaloa é um exemplo claríssimo do risco de usar militares treinados para o combate em vez de uma força policial treinada para usar o mínimo de força possível".
"Soldados são soldados, não devem estar acostumados como força policial doméstica, estão treinados para dar combate a um inimigo", disse Sánchez. "Estão assustando toda a população, mas só estão sendo eles mesmos. A polícia mexicana não é capaz de lutar contra os cartéis, mas se se trouxerem os militares, isso significará violações dos direitos humanos".
"O México é o país da América Latina que corre mais perigo", advertiu o diretor-executivo do COHA (sigla em inglês), Larry Birns. "Há a convergência de corrupção endêmica e sistemática - a corrupção das forças de segurança está se aproximando dos padrões iraquianos - combinada com um sistema político frágil com um presidente impopular e o quase desmancho da sociedade civil. Para o mexicano médio em um dia qualquer, a ordem pública não existe", disse ele à Crônica.
O México bota a culpa do problema com os cartéis na demanda de drogas nos EUA. "Tenho dito e sustento que este é um problema comum entre Estados Unidos e México", disse Calderón na semana passada. "A causa principal do tráfico de drogas é o consumo e a (União Americana) é o primeiro consumidor do mundo e é o nosso vizinho".
A violência relacionada com a proibição no México também pode causar impacto na política interna estadunidense. "Isto está virando um problema real de segurança para os EUA enquanto nos aproximamos das fases finais do NAFTA", discutiu Birns do COHA. "As inspeções de caminhões serão mais mínimas e a situação comprometerá as políticas de drogas ao longo da fronteira. Também dará armas retóricas aos céticos de qualquer tipo de abrir as fronteiras ou da anistia para os trabalhadores sem documentos. As fronteiras abertas significariam a infiltração quase irrestrita de drogas e traficantes nos Estados Unidos".
Já que nenhum governo está disposto a lidar com a causa principal do problema - a proibição das drogas -, a guerra às drogas deste ano no México vai se parecer muitíssimo com a do ano passado e a do ano que vem. Os níveis de violência, horripilância e brutalidade parecem ser a única diferença.


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