Na quinta-feira, dois oficiais de repressão aos entorpecentes de Atlanta se confessaram culpados das acusações de homicídio culposo na morte a tiros de uma idosa durante um reide antidrogas estropiado, mas isso é só o começo no que parece ser uma investigação cada vez maior da má conduta no esquadrão antientorpecentes de Atlanta. Uma investigação federal já está em andamento, e, ontem, o deputado John Conyers (D-MI), presidente do Comitê da Câmara sobre o Judiciário, fez um apelo ao procurador-geral Alberto Gonzáles a lançar uma investigação minuciosa dos problemas levantados pelo caso, inclusive a má conduta na polícia, o uso de informantes confidenciais, as cotas de detenção e a credibilidade dos policiais.

Desde então, os investigadores descobriram que no caso de Johnston:
- Os oficiais de repressão aos entorpecentes plantaram as drogas para deter um traficante suspeito, que em troca lhes indicou a residência de Johnston;
- Os oficiais de repressão aos entorpecentes mentiram em sua solicitação de mandado de busca, dizendo que um informante confidencial comprara drogas naquele endereço quando isso não aconteceu;
- Os oficiais de repressão aos entorpecentes mentiram em sua solicitação de mandado de busca, dizendo que a casa estava ocupada por um homem grande que empregava câmeras de vigilância;
- Os oficiais de repressão aos entorpecentes plantaram a maconha no sótão de Johnston depois que atiraram nela a fim de reforçar o caso deles e impugnar a reputação dela;
- Os oficiais de repressão aos entorpecentes pediram a outro informante confidencial que mentisse por eles depois do fato e dizer que ele comprara as drogas na residência de Johnston.
Mas, esse informante confidencial, Alexis White, se dirigiu aos federais com a estória dele (e, nesta semana, ele foi a Washington, DC, para conversar com os líderes no Congresso sobre a delação) e a trama de mentiras urdida pelos agentes de Atlanta se desemaranhou rapidamente. Na quarta-feira passada, três deles, os oficiais Gregg Junnier, Jason Smith e Arthur Tesler foram indiciados por numerosas acusações estaduais, inclusive assassinato, assim como acusações federais relacionadas aos direitos civis. No dia seguinte, Junnier e Smith se confessaram culpados de uma acusação estadual de homicídio culposo, com a condenação adiada até depois do término da investigação federal. Eles podem pegar 10 anos pela acusação de homicídio culposo e até pena de prisão perpétua pela acusação federal relacionada aos direitos civis.
Mas, os problemas no esquadrão antientorpecentes de Atlanta são mais profundas do que um incidente de má conduta. De acordo com os investigadores federais, o que os agentes de Atlanta fizeram durante o reide estropiado contra Johnston era uma prática usual.
"Junnier e outros oficiais falsificavam ofícios para obterem mandados de busca a fim de serem considerados oficiais produtivos e cumprirem as metas de desempenho da Polícia de Atlanta", de acordo com uma exposição federal lançada na quinta-feira. "Eles achavam que esses fins justificavam o 'fluffing' ilegal deles ou falsificação de mandados de busca. Porque eles obtiveram os mandados de busca com base em informação duvidosa e falsa, [os oficiais] tinham realizado buscas de vez em quando em residências em que não havia drogas e em que os ocupantes não eram traficantes".
Mas, trapacear pode ter conseqüências sérias. Como apontaram os procuradores, assim que os agentes tinham recebido uma pista de que havia drogas na residência de Johnston, o oficial Junnier disse que podiam fazer com que um informante confidencial fizesse uma compra para garantir que realmente havia drogas nesse local. "Ou não", Smith supostamente respondeu.
Numa entrevista coletiva na quinta-feira passada, o agente especial encarregado do FBI Atlanta, Greg Jones, chamou de "deplorável" a conduta dos oficiais. Num adendo de mau agouro, Jones acrescentou que a agência irá levar a cabo "as alegações adicionais de corrupção de que outros oficiais da polícia de Atlanta possam ter tomado parte numa conduta similar".
O procurador federal David Nahmias disse que a morte de Johnston foi "quase inevitável" por causa de uma atividade tão disseminada e prometeu uma investigação abrangente das práticas da polícia. Ele disse que espera encontrar outros casos em que os oficiais mentiram ou se fiaram em informação ruim. "É uma investigação muito corrente de até que ponto a cultura da improbidade se estende", disse Nahmias. "Escavaremos até que consigamos encontrar o que pudermos".
E agora o diretor do Comitê da Câmara sobre o Judiciário, o deputado Conyers, quer garantir que os federais escavem bastante. Numa carta lançada ontem, disse Conyers ao procurador-geral Gonzáles:
"Há diversas questões-chave levantadas pelo caso Johnston: a improbidade da polícia (falsificação de informação e uso excessivo de força); mal-uso de informantes confidenciais; impacto potencialmente negativo das cotas de detenção e das medidas de desempenho; e a integridade e a credibilidade dos oficiais da lei. Estamos particularmente preocupados com o mal-uso dos informantes confidenciais. A confiabilidade dos informantes confidenciais usados nos casos de entorpecentes está comprometida freqüentemente porque estão cooperando com a lei a fim de se verem livres das acusações criminais. A ausência de requisitos de corroboração para a informação obtida através de informantes confidenciais permite o abuso. Todos estes fatores podem ter o efeito de desgastar a confiança pública no sistema de justiça penal.
"Estamos preocupados que o incidente de Atlanta possa servir de indício para um problema sistemático dentro da Polícia de Atlanta. Além do mais, nos inquieta que as ações da Polícia de Atlanta possam ser um reflexo da conduta usada em outras jurisdições por todo este país. De maneira considerável, o número de ‘reides inadvertidos’ aumentou de três mil em 1981 para mais de cinqüenta mil em 2005".
O ex-oficial de repressão aos entorpecentes de Nova Jérsei e atual diretor da Law Enforcement Against Prohibition, Jack Cole, comunga com as preocupações de Conyers. "Acho que este tipo de coisa está acontecendo em todo o país", disse ele à Crônica da Guerra Contra as Drogas. "Se alguém realmente investigasse isso, encontrar-se-iam coisas similares em muitas polícias. É o caso de usar uma metáfora da guerra contra as drogas. Quando há uma guerra, precisa-se de um inimigo, alguém desprezível, para que se possa fazer o que se queira com eles", disse. "Treinamos os nossos polícias para sentirem como se tivessem que vencer a todo custo porque é uma guerra".
Talvez, talvez a investigação federal dos agentes de Atlanta vire o tipo de audiências sobre o policiamento na guerra às drogas tão necessárias há tanto tempo. Se não, pelo menos Kathryn Johnson conseguiu uma medida de justiça.


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