Matéria: A guerra contra a Salvia divinorum esquenta

Nesta semana, Middlesbury, Vermont, declarou uma emergência de saúde pública para impedir um negócio local de vendê-la. Ela já é ilegal em cinco estados – Luisiana, Missouri, Tennessee, Oklahoma e Delaware – e em uma série de municípios e cidades por todo o país, e agora os políticos em pelo menos sete estados apresentaram projetos para ilegalizá-la neles. Para a DEA, é uma “droga preocupante”.

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folhas de sálvia (foto por cortesia de Erowid)
É a sálvia divinorum, uma integrante da família da menta do México, onde tem sido usada durante séculos pelos curandeiros mazatecas. Na última década, a ciência das suas propriedades alucinógenas poderosas começou a se infiltrar na consciência popular. Agora, está à venda nas lojas de apetrechos para usuários de drogas e através da Internet, onde pode ser comprada em uma forma fumável que produz uma intoxicação quase instantânea e uma tremenda euforia que dura alguns minutos.

Enquanto os homens da lei e os políticos se deparam com ela e com o fenômeno de seu consumo recreativo, estão reagindo da maneira clássica com medidas para ilegalizá-la. Em Delaware, os pais de luto de um adolescente que cometeu suicídio após consumir sálvia conseguiram aprovar um projeto de lei na assembléia. Em Ohio, a polícia que topou com ela enquanto investigava artigos falsificados tocou o alarme, apesar de eles nunca terem tido nenhuma problema com ela. Os policiais responderam previsivelmente. “Sentimos que é algo que deveria ser ilegalizado”, disse o capitão da Força-Tarefa Antidrogas da Comarca de Lorain, Dennis Cavanaugh, ao Cleveland Plain Dealer.

Mas, os investigadores dizem que embora os efeitos sobre a consciência possam ser inquietantes, a planta não mostrou ser tóxica para os humanos, que os seus efeitos são tão potentes que não é provável que seja usada várias vezes e que a propriedade ativa dela, a salvinorina-A, pode ajudar no desenvolvimento de medicamentos para os transtornos do estado de ânimo. Embora as providências do estado provavelmente não afetem a pesquisa, uma medida da DEA para pô-la na lista de substâncias controladas poderia fazer isso.

A sálvia é um artigo popular na Urban Shaman Ethnobotanicals no centro de Vancouver e a atenção da mídia só incita as vendas, de acordo com o dono Chris Bennett. “Estamos vendendo cerca de 50 gramas do 10x a cada duas semanas”, disse ele à Crônica da Guerra Contra as Drogas. “São mais os jovens – apesar de não a vendermos a menores de 18 -, mas não está limitado a eles. Sempre que sou citado na mídia falando sobre a sálvia, consigo um montão de clientes novos de meia-idade que querem experimentá-la”.

Normalmente, uma ou duas vezes bastam, disse Bennett. “É muito poderosa – dá para esquecer que se fumou -, muito intensa e os efeitos começam muito rápido”, explicou. “Também há muita variação de uma pessoa a outra. Quatro pessoas podem se sentar em uma sala e consumi-la e uma dá risada, a outra teme que o mundo estivesse acabando, a próxima sente que é bidimensional e a última diz que tudo parece ser feito de blocos de Lego. Ouço muitas pessoas dizerem essa última”.

Como muitos outros fornecedores de sálvia, a Urban Shaman proporciona um folheto informativo com cada compra. “Dizemos às pessoas que devem ter um ajudante. Se você consumiu sálvia e termina no terraço, pode chegar a pensar que consegue descer as escadas pulando”, disse Bennett. “É bom ter alguém com você; é irresponsável consumi-la sozinho”, disse. “Também recomendamos um ambiente silencioso. A experiência pode ser influenciada por ruído ambiente, o qual pode ser distorcido ou mal-interpretado. O entorno é importante”.

Há riscos no manuseio de alucinógenos, apontou rapidamente um especialista. “É um alucinógeno e embora as suas ações alucinógenas sejam diferentes daquelas induzidas pelo LSD e demais alucinógenos, tem as desvantagens que os alucinógenos têm”, disse Bryan Roth, professor de farmacologia na Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, o homem que isolou a salvinorina-A. “Quando as pessoas a consomem, ficam desorientadas. Se você não sabe onde está e está dirigindo um carro, seria uma experiência ruim”.

Mas, disse Roth, embora possa te fazer ficar doidão, não vai te matar. “Não há provas de qualquer toxicidade patente, não há quaisquer relatos na bibliografia médica de que alguém tenha morrido por ela. A única advertência é a de que não houve nenhum estudo formal feito com humanos, mas os dados das investigações realizadas com animais sugerem que não mata os animais que recebem doses massivas, e, usualmente – mas nem sempre -, isso é preditivo para a farmacologia humana”.

“Não estou ciente de nenhum estudo que sugira que a sálvia é tóxica”, disse Thomas Prisinzano, professor-assistente de química com produtos medicinais e naturais na Universidade de Iowa. “Diferentemente de outros alucinógenos, age estimulando os receptores opiáceos e produz basicamente uma experiência alucinógena que chega ao seu ponto mais alto em menos de 15 minutos. Produz uma subpopulação que a acha muito desagradável e nunca mais quer experimentá-la de novo”.

Em razão de seus efeitos intensos, provavelmente também não se ficará viciado nela. “Parece que não há muito potencial para a dependência, apesar de ninguém ter investigado isso detalhadamente”, disse Roth. “A pessoa típica com quem eu conversei não gostou da experiência; é intensa demais para alguém que busca uma experiência de LSD em pequena escala. É muito rápida no começo e muito intensa, então normalmente não é considerada uma droga de festa”.

Mesmo Bennett, de cuja clientela se podia esperar que contivesse alguns aventureiros psicodélicos mais sérios, confirmou que ela não é uma droga a que a maioria volta uma e outra vez. “Mesmo aqueles que ficam interessados nela não a consomem com muita freqüência, talvez uma vez por semana para explorar o espaço da cabeça, mas esses salvianautas são poucos e raros”, informou. “A maioria a experimenta uma ou duas vezes e não tem mais vontade de experimentá-la de novo. Os que a consomem com um propósito ou para uma busca ou visão espiritual são aqueles que a acham mais útil”, disse.

“Há uma subpopulação que a consome mais para fins espirituais do que recreativos”, concordou Roth. “Parece ser a coorte que a está usando mais do que uma ou duas vezes”.

Embora a DEA não retornasse as ligações da Crônica para obter comentários sobre o status atual da sálvia, agiu devagar. Classificou a planta como “droga preocupante” durante vários anos, mas ainda tem que tomar providências para colocá-la sob o controle da Lei de Substâncias Controladas [Controlled Substances Act]. A possível dependência limitada da planta pode ser um dos motivos. Outro pode ser que ainda é relativamente rara e provavelmente nunca se transforme em uma droga com muitos seguidores.

Para os cientistas, que aceitavam a regulação, não a proibição da sálvia, estava tudo bem. “A distribuição da sálvia deveria ser regulada”, disse Roth. “Regulamos a nicotina e o álcool e os efeitos desses compostos sobre a consciência e a percepção humanas são bem modestos em comparação com os da sálvia. Que esteja à venda na Internet a jovenzinhos é um pouquinho irresponsável. Eles podem se meter em alguma conduta perigosa enquanto a consomem. Não vendemos álcool na Internet”.

Mas, embora Roth pedisse a regulação da sálvia, não queria que ela fosse acrescentada à lista de drogas proibidas pela Lei de Substâncias Controladas. “Sou contrário a torná-la um composto de Classe I”, disse. “Assim que se classifica algo, isso dificulta a investigação científica e há potencial considerável para que os derivados do ingrediente ativo tenham grande utilidade médica. A classificação dificulta que nós tentemos aliviar o sofrimento humano”.

Se a sálvia fosse proibida, o seu trabalho sofreria, disse Prisinzano. “Isto prejudicaria mais os pesquisadores do que eu e agora há um esforço em andamento para realizar testes clínicos em seres humanos perante um conselho de revisão”, disse. “Mas, isso dificultaria a obtenção das folhas. No momento as compramos das head shops na Internet”.

Talvez os legisladores em estados como Iowa, Illinois, Nova Jérsei, Oregon e Texas, onde os projetos de proibição estão em discussão, devam reavaliar com calma o alcance da ameaça da sálvia e descartar tais leis como merecem. Ou substitui-las por medidas reguladoras razoáveis. Mas, provavelmente, isso é pedir demais.

Permission to Reprint: This article is licensed under a modified Creative Commons Attribution license.
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