Os observadores cuidadosos da imprensa britânica estão acostumados com o grotesco dos tablóides. Até uma revisão superficial das matérias sobre as drogas na imprensa britânica revela manchetes ofegantes - "Maconheiro na Vergonha das Drogas", "Viciada em Heroína em Tragédia das Drogas" - e declarações alarmistas assombrosas. Só nesta semana, o tablóide Liverpool Echo advertiu que "cannabis SUPERforte tão potente que uma tragada pode causar esquizofrenia está sendo cultivada pelas gangues narcotraficantes de Merseyside".

"Em 1997, este jornal lançou uma campanha para descriminalizar a droga", começou dizendo o editorial escrito por Jonathan Owen. "Se tivéssemos sabido então o que podemos revelar hoje... Números recordes de adolescentes estão exigindo tratamento químico como resultado do fumo de skunk, a variedade altamente potente de cannabis que é 25 vezes mais forte do que a resina vendida há uma década. Mais de 22.000 pessoas foram tratadas no ano passado pela dependência da cannabis - e quase metade dos afetados era menor de 18 anos. Com médicos e especialistas em drogas advertindo que o skunk pode causar tantos danos como a cocaína e a heroína, levando a problemas de saúde mental e psicose para milhares de adolescentes, no domingo The Independent voltou atrás hoje em sua campanha referencial a favor da descriminalização do consumo de cannabis".
O jornal também citou "provas crescentes de que o skunk causa doença mental e psicose" e estatísticas que mostram "que o número de jovens em tratamento quase dobrou" entre 2005 e 2006. E outra vez com o skunk: "O skunk fumado pela maioria dos jovens britânicos não tem relação nenhuma com a resina da cannabis - com um aumento de 25 vezes na quantidade do principal ingrediente psico-ativo, o tetrahidrocannabinol (THC), tipicamente encontrado no início dos anos 1990".
O jornal também citou diversos especialistas acadêmicos que estiveram na vanguarda da campanha para provar que a cannabis traz sérias conseqüências para a saúde mental. De acordo com o professor Robin Murray do London Institute for Psychiatry, o consumo de cannabis responde por 10% de todos os casos de esquizofrenia no Reino Unido. "O número de pessoas que consome cannabis pode não estar crescendo, mas o que as pessoas estão ingerindo é muito mais poderoso, então há uma questão de saber se daqui a alguns anos poderemos ver pessoas adoecendo como conseqüência disso".
The Independent também citou o professor Neil McKeganey do Centre for Drug Misuse Research da Universidade de Glasgow, propagandista antidrogas veterano. "Podemos presenciar, durante os próximos 10 anos, números crescentes de jovens em sérias dificuldades", disse.
Porém, os defensores da reforma da legislação sobre as drogas e os especialistas acadêmicos em maconha ficaram indignados e consternados pela nova posição do Independent e sua aparente queda na reportagem do tipo tablóide. "Isto lembra muito o pânico pela potência nos EUA há alguns anos", disse Steve Rolles da Transform Drug Policy Foundation de Londres, que, no início desta semana, escreveu uma publicação altamente crítica sobre a mudança de curso do Independent. "Se se pegar a cannabis menos potente de uma era e se ela for comparada com a mais forte da era atual, dá para fazer esse argumento de 25:1, mas isso simplesmente não representa a realidade. É justo dizer que tem havido um aumento na prevalência da cannabis mais potente cultivada em lugares fechados, mas o Independent escolheu seletivamente os dados. O que eles fizeram foi exagerar extremamente para fazê-lo parecer um problema maior do que é, e isso é tanto ciência ruim quanto jornalismo preguiçoso".
"É uma das tentativas mais ridículas e flácidas para justificar a proibição que já vi", disse Allen St. Pierre, diretor-executivo da National Organization for the Reform of Marijuana Laws (NORML). "A mídia do Reino Unido está resguardada por um alarmismo incrível para o qual até os Estados Unidos não são páreos atualmente. Eu mantenho um arquivo chamado jornalismo ruim. É um dossiê bem grande, mas nunca acrescentei tanto material como no domingo passado. Esse skunk de que eles tanto falam deve ser extremamente forte; veja só o efeito incrivelmente deletério que só escrever sobre ele causa no poder das pessoas de pensarem racionalmente", disse ele à Crônica da Guerra Contra as Drogas.
O Dr. Mitchell Earleywine, professor de psicologia na Universidade Estadual de Nova Iorque em Albany e autor de "Understanding Marijuana: A New Look at the Scientific Evidence” [Entendendo a Maconha: Um Novo Olhar para as Provas Científicas], caçoou das afirmações do Independent sobre a potência e o vínculo entre a maconha e a esquizofrenia. "Provavelmente, há um aumento de duas a três vezes na potência em média", disse ele à Crônica da Guerra Contra as Drogas. "Estimativas dos anos 1970 são prováveis subestimativas porque não compreendíamos como o armazenamento em armários de provas quentes da polícia degradava o THC. A maior parte das estimativas de então estava em torno de 1% de THC. Quando damos às pessoas uma maconha que tenha 1% de THC no laboratório, é tão fraca que conseguem uma dor de cabeça e acham que receberam um placebo. Obviamente, a planta não teria ficado tão popular se só desse dores de cabeça".
Mesmo se a cannabis for mais forte hoje, não se deduz daí que é mais arriscado, e a potência maior pode ser melhor, acrescentou Earleywine. "A suposição tácita de que mais potente equivale a mais perigoso também está errada. Os dados sobre a euforia subjetiva que as pessoas obtêm sugerem que as pessoas não estão se inebriando mais do que de costume", indicou. "Elas podem acabar fumando menos, usando menos cannabis conseqüentemente, e, portanto, limitando as chances de desenvolverem quaisquer sintomas respiratórios. Apesar de o consumo de cannabis não aumentar o risco de câncer de pulmão, pode aumentar os casos de tosse, sibilância, etc. Aqueles que fumarem a cannabis mais potente tendem a dar tragadas menores e depositar menos fumaça em seus pulmões".
Earleywine também questionou a ciência por trás da afirmação de vínculo entre a maconha e a esquizofrenia. "O óbvio, que a maconha não causa esquizofrenia, mas que os esquizofrênicos gostam de maconha, tende a aplicar-se aqui", disse. "Os estudos duradouros freqüentemente fazem o bom trabalho de avaliarem a psicose no final do período, mas o trabalho ruim de avaliarem os sintomas no início do estudo. Agora, há cerca de cinco estudos longos que sugerem aumentos em 'transtornos psicóticos' ou 'transtornos de espectro esquizofrênico' em pessoas que são usuárias inveteradas de cannabis em um período muito prematuro da vida. Também há seis estudos para mostrar mais sintomas de transtornos de personalidade do tipo esquizofrênico, a doença rara e inutilizante que afeta cerca de 1% da população", disse.
"O melhor argumento contra esta idéia vem dos trabalhos que mostram que a esquizofrenia afeta 1% da população em todos os países e em todas as eras, apesar da quantidade de cannabis que foi consumida na época ou até dez anos antes", acrescentou Earleywine.
A suposta relação com a esquizofrenia é mais exagerada, disse Rolles. "Nada mudou tanto. Os perigos associados com a cannabis têm sido documentados durante anos. Certos grupos, particularmente os adolescentes e as pessoas que têm problemas preexistentes de saúde mental, podem ter problemas se usarem cannabis", admitiu. "Mas, mais uma vez, isto é mais uma seleção das estatísticas, o alarmismo usado para justificar a proibição. Exageram-se os perigos. Vemos que isto acontece uma e outra vez com todas as drogas".
Quanto às afirmações do Independent de que a cannabis potente está levando a números recordes de jovens britânicos ao tratamento químico, Rolles mantinha o mesmo ceticismo. "A experiência nos Estados Unidos é instrutiva", disse. "Lá, o seu secretário antidrogas fala sobre números enormes de jovens em tratamento por problemas relacionados à cannabis, mas se se der uma olhada nos números, a maioria deles é encaminhada pelos tribunais. O mesmo acontece aqui".
"Esta coisa da esquizofrenia é própria da Inglaterra e, em menor medida, da Austrália", disse St. Pierre da NORML. "O principal defensor desta tese, o pesquisador Robin Murray, está literalmente tentando criar um novo mito ao redor da cannabis. Parece que temos um novo mito mais ou menos em todas as décadas. Nos anos 1930, a maconha te deixava louco; nos anos 1940, te tornava criminoso; nos anos 1950, te fazia querer usar drogas pesadas; nos anos 1960, te tornava hippie ou comunista radical; nos anos 1970, te deixava apático ou desmotivado. Agora, temos esta última versão - a de que a cannabis é uma fonte de psicose. A maneira pela qual a mídia britânica tem acreditado nisto é uma desgraça", disse.
"Empiricamente, este é um dos mitos sobre a maconha mais fáceis de derrubar", disse St. Pierre. "De Londres, praticamente dá para ver a Holanda, um país em que a cannabis está prontamente disponível e é bem potente. Se um centésimo do que eles afirman fosse verdade, estar-se-ia caminhando sobre cadáveres em Amsterdã".
St. Pierre observou que a conexão maconha-esquizofrenia não migrou para os Estados Unidos. "Cadê a Associação Estadunidense de Psicologia?, cadê a Associação Estadunidense de Psiquiatria?" perguntou. "Eles deveriam ser os aliados naturais dos britânicos nisto, mas não são porque isto é um completo absurdo".
Como a NORML, a Transform é um grupo que trabalha para acabar com a proibição da maconha. As organizações britânicas da saúde mental têm um ponto de vista diferente. "Agora sabemos que a cannabis pode precipitar problemas de saúde mental e fumá-la quando se é menor de 18 anos pode dobrar as chances de desenvolver psicose", disse um porta-voz do grupo Rethink, que lida com a saúde mental, à Crônica da Guerra Contra as Drogas. "O governo deve fazer investimentos em uma campanha de saúde pública em grande escala para que os jovens saibam que a cannabis não está livre de riscos".
Embora a Rethink tenha liderado a ofensiva a favor da maior consciência dos perigos da cannabis através da sua a href="http://www.rethink.org/how_we_can_help/campaigning_for_change/cannabis_and_mental_illness/index.html" target=_blank_>Campanha Cannabis e Doença Mental, o grupo não está defendendo a reclassificação da droga. Ao invés disso, acha que a sua classificação atual como droga de Classe C é adequada.
Isso não é o que o parlamentar Paul Flynn acha. As provas dos possíveis danos não mudam a dinâmica subjacente de sua posição antiproibicionista. "O meu ponto de vista é exatamente o mesmo. A proibição não funciona", disse. "É muito pior ter o mercado controlado por criminosos perigosos do que isso seja controlado apropriadamente".
E assim se agita o debate sobre a cannabis na Grã-Bretanha.


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