
Na Bolívia, onde a coca tem sido parte da vida por milhares de anos, o movimento dos cocaleiros floresceu até o ponto em que um dos seus líderes, Evo Morales, ascendeu agora à presidência e está desempenhando um papel ativo na defesa da "folha sagrada". Morales também está fazendo pressão pela industrialização da folha de coca e está trabalhando com os governos venezuelano e cubano para levar o processo a cabo. E ele respondeu o clamor dos cocaleiros na sua região nativa do Chapare pela expansão de fato do cultivo de coca permitido.
No Peru, onde a coca também tem uma longa história de consumo tradicional, o movimento cocaleiro não é tão aguerrido como na Colômbia nem tão avançado como na Bolívia. Embora o governo do presidente Alan García siga as suas políticas de erradicação forçada do excedente de coca endossadas pelos EUA e adote o desenvolvimento alternativo como opção para os cocaleiros, pelo menos também dá o seu apoio à noção da coca como cultivo legítimo com numerosos usos medicinais, alimentares e industriais.
Diferentemente da Colômbia, o Peru reconhece o mercado tradicional em coca e criou um monopólio nacional, a ENACO, para comprar o cultivo legítimo. Mas, o cultivo legítimo só é uma fração da folha de coca produzida no país, então os agricultores continuam enfrentando campanhas de erradicação e repressão legal ali. Mais de 30.000 acres de cocais foram erradicados pela força em 2005 e embora os números finais de 2006 ainda não tenham chegado, com certeza esse dado será ainda mais alto.
Assim, os cocaleiros peruanos estão com vontade de lutar. Eles entraram em conflito várias vezes com a polícia, os soldados e os erradicadores civis peruanos, eles realizaram greves locais e protestos nacionais contra a erradicação forçada e o que eles vêem como esforços malfeitos de desenvolvimento alternativo e, agora, alguns de seus membros estão alcançando cargos de poder político dentro do governo peruano e de organizações políticas regionais.

Embora Obregón dissesse que ela e seus aliados no congresso estão trabalhando para fazerem avançar a legislação pró-coca, as coisas estão difíceis. Como integrante do Partido Nacionalista Peruano do candidato à presidência derrotado, Ollanta Humala, ela e os seus aliados estão na oposição.
"Nós, cocaleiros, somos pessoas que vivem na extrema pobreza e temos que cultivar a folha sagrada para sobrevivermos", disse o atual diretor da CONPACCP, Nelson Palomino. "Somos peruanos honestos e trabalhadores e não somos culpados de nada por cultivarmos a coca para subsistir", disse ele, mascando folhas de coca enquanto falava. "O que vamos fazer? O desenvolvimento alternativo fracassou. O dinheiro estrangeiro que deveria chegar aos vales é embolsado pelos funcionários em Lima", reclamou Palomino. "Esperamos que o mundo entenda que temos boas intenções".

Na área natal de Palomino, o Vale do Rio Ene, os cocaleiros assumiram o poder exatamente por meios democráticos. "No meu vale, as 70 municipalidades são governadas por cocaleiros e o governo está preocupado. Temos uma presença democrática em Ayacucho e no Vale do Ene. Agora, temos que dar um fim à política burra da erradicação".
Mas, isso vai exigir cada vez mais unidade do movimento cocaleiro nacional. Embora Palomino afirmasse que a CONPACCP representa 90% de todos os cocaleiros peruanos, há divisões e rivalidades tanto dentro da confederação quanto entre ela e outros líderes cocaleiros. Os analistas que estão familiarizados, porém fora do movimento cocaleiro, acusam não só Palomino, mas outros líderes, como Obregón e a deputada do parlamento andino, Elsa Malpartida, ambas ex-líderes da CONPACCP, de virarem presas do personalismo e de outros pecados políticos.
Enquanto isso, em Monzón no Vale do Alto Huallaga, o líder cocaleiro Iburcio Morales segue o seu próprio caminho radical. "A situação é muito complexa", disse Palomino. "Respeitamos muito a democracia e não podemos ditar ordens às demais regiões, mas Iburcio caminha sozinho porque não ouve e conversa com qualquer um - o governo, o Sendero Luminoso, com quem lhe der na telha".
"O movimento cocaleiro está isolado e é subordinado às políticas gerais do governo peruano, descoordenado, egoísta e incapaz de construir uma agenda coletiva para afrontar os problemas reais da pobreza, o meio ambiente, as questões culturais e a situação política internacional, particularmente com os EUA", disse o advogado, ativista dos direitos humanos e especialista em drogas e defesa, Ricardo Soberón, em uma crítica fulminante. Soberón também viu as vitórias eleitorais de Obregón e Malpartida como se houvessem sido um custo para o processo organizativo que confiara anteriormente na sua liderança ativa.
"O movimento perdeu bons líderes quando Nancy Obregón e Elsa Malpartida [ambas ex-líderes da CONPACCP] foram eleitas ao congresso peruano e ao parlamento andino, respectivamente. O governo peruano é suficientemente esperto para conhecer a incapacidade do movimento de trabalhar juntos e joga uns contra os outros. O governo convida um líder, mas não o outro; dá dinheiro a alguns, mas não a outros, e os líderes cocaleiros ficam tão ocupados atacando uns aos outros que pela árvore não vêem o bosque. Eu culpo os quatro líderes nacionais por esta situação", disse Soberón, que fora assessor de Obregón, mas pediu demissão por frustração.
Embora Palomino zombasse de tais críticas, ele qualificou o movimento cocaleiro democrático como "gestante". Um "parto prematuro" seria um desastre, disse. "Se isto não funcionar de maneira democrática, veremos muita sangue", advertiu. "Estamos tentando preparar o terreno; queremos fazer isto direito, queremos salvar a vida da coca e queremos salvar a nós mesmos. Não vamos morrer de fome", prometeu.

Embora Obregón reconhecesse murmúrios e ataques intramuros dentro do movimento, ela os atribuiu em grande parte à debilidade humana. "Há inveja e egocentrismo, como em todos os lugares", disse Obregón. "Também estamos sob o ataque da imprensa marrom, que representa equivocadamente as nossas ações. E, como líderes, acho que Elsa e eu fazemos frente a um certo machismo. Sim, há diferentes líderes nacionais e alguns são mais favorecidos pelos camponeses do que os outros, mas não há polêmica dentro do movimento", sustentou.
Embora os governos peruano e estadunidense sejam rápidos em traçar conexões entre os cocaleiros e as guerrilhas persistentes do Sendero Luminoso, Palomino foi cuidadoso em negar todo e qualquer vínculo entre os cocaleiros e as guerrilhas, que se originaram em Ayacucho nos anos 1960 e 1970, então lançaram uma tentativa de revolução que matou quase 80.000 peruanos nos anos 1980 antes de perder energia. Na estrada entre Ayacucho e o VRAE, as ruínas das aldeias queimadas pelo Sendero Luminoso são lembretes do seu reinado breve e sangrento. Mas, o Sendero Luminoso ainda marca presença no VRAE, onde nos últimos meses atacou e matou policiais e trabalhadores da erradicação das drogas.
[Nota do Editor: Pelo menos, essa é a versão oficial. Os líderes cocaleiros nos municípios em que cinco policiais e dois erradicadores civis foram mortos no início deste ano negaram que fosse uma ação do Sendero Luminoso. Pelo contrário, eles disseram que a polícia estivera abordando e roubando os cocaleiros e que os habitantes locais fizeram justiça com suas próprias mãos.]
"A CONPACCP é contra a subversão, seja de parte do governo ou das forças clandestinas", disse Palomino. "Somos um movimento pacífico e democrático e nós gostaríamos de ver uma política eficiente para o narcotráfico e para a subversão, mas a sua guerra às drogas não está funcionando. As suas agências de inteligência estão trabalhando sem inteligência e a polícia provavelmente nos deterá como terroristas, mas nós, cocaleiros, não somos responsáveis por isso".
Para Palomino, uma política correta de coca é uma que não ataque a coca, mas uma que se concentre no narcotráfico e persiga os consumidores no Primeiro Mundo. "Uma política sincera atacaria os produtos químicos usados para fazer cocaína e não há política drástica contra os consumidores", sustentou. [Nota do Editor: A esta altura, o vosso repórter teve que fazer uma interrupção para apontar que só nos EUA, mais de 500.000 pessoas são presas na guerra às drogas.] "Os EUA não vão atrás das grandes fábricas químicas", prosseguiu Palomino. "A corrupção e o narcotráfico são administrados pelos Estados Unidos, os homens de terno e gravata, enquanto nos perseguem, nós, humildes camponeses".
Sem dúvida, a erradicação é uma política errada, disse Palomino. "O governo peruano está seguindo o exemplo dos norte-americanos, mas esta política está nos matando. Por isso viramos um polo de resistência. Não somos uma colônia dos EUA, não estamos loucos, mascamos coca a toda hora e também não somos terroristas nem traficantes de drogas, só estamos tentando sobreviver. Não podemos permitir a erradicação forçada dos nossos cultivos".
"A política atual é um desastre", concordou o psicólogo e especialista em coca, Baldomero Cáceres, do seu apartamento no subúrbio limenho exclusivo de Miraflores. "Nada mudou com García. A opinião pública começou a mudar no sentido de que a folha de coca agora está começando a ser vista como um recurso natural valioso, mas o governo não tirou as suas próprias conclusões porque não quer irritar o governo norte-americano. Vamos precisar de um milagre, porque o establishment político não quer conversar sobre isto".
Soberón concorda em grande parte com o que é preciso fazer a respeito das políticas de coca no Peru. "Primeiro, temos que dar um fim às coisas que estão sendo feitas atualmente pelo Estado Peruano - a erradicação, a interdição, a militarização", disse ele. "O governo anda confiscando dez ou doze toneladas métricas de cocaína por ano e prendendo 10.000 ou 12.000 pessoas, mas em sua maioria elas são só consumidores que têm que ser soltas, e isto é muito ineficaz. Precisamos ter uma avaliação do que as políticas atuais conseguiram", discutiu.
"Segundo, precisamos deixar os cocaleiros em paz. Eu usaria os recursos no litoral para interceptar a cocaína que deixa o país", sugeriu. "Também precisamos mais transparência no desenvolvimento alternativo. Os camponeses desconfiaram completamente de Lima durante décadas e temos que mostrar que confiamos nos camponeses. Por fim, temos que revisar fundamentalmente as nossas relações com os EUA. Quais são as nossas prioridades peruanas?"
Palomino e a CONPACCP olham com esperança para a Sessão Especial da Assembléia Geral da ONU sobre as Drogas em Viena no ano que vem. "Estamos fortificando a nossa causa para Viena em 2008. Trabalharemos juntos contra as drogas, mas quando falem da coca, exigimos que a legalizem e que a descriminalizem como planta indígena - não uma droga - e a promovam para o uso industrial e nutricional".
Quanto a tirar a coca da lista de substâncias proibidas dos tratados da ONU, Cáceres não tinha esperanças. "Eu continuo sendo pessimista sobre as perspectivas de mudança nesse nível", disse. "O governo peruano não vai fazer o que é tem de se fazer para apresentar um caso a favor da mudança na ONU e não acho que a Bolívia possa fazer isso sozinha. Essa é única rota útil para afetar a mudança, mas não acho que tenha chegado a hora".
Para Cáceres, legalizar a coca seria só um passo interino rumo a eliminar o regime global da proibição das drogas. "Acho que, enfim, precisamos trabalhar para a legalização tanto das plantas como dos fármacos derivados delas", disse ele. "Como com a coca, o mesmo com a maconha e a papoula. Mas, não há por que ter esperanças de que isso vá acontecer no futuro previsível", lamentou.
Soberón também tinha um ponto de vista sóbrio das perspectivas de mudança na ONU. "Acho que 2008 nos trará a mesma história de sempre", disse. "Agora que entendo mais ou menos como funciona a burocracia, acho que as drogas se moverão nesse nível. Eles podem atirar algumas migalhas, mas, afinal, a questão das drogas é uma ferramenta política para que os EUA intervenham nos países estrangeiros. E embora Morales na Bolívia possa fazer pressão, Bogotá sempre fará o que os EUA querem, e Lima também".
O movimento cocaleiro do Peru é forte e vibrante, mas também está dividido e isolado. Acossado por rivalidades fortíssimas e uma conjuntura internacional difícil, até agora tem sido incapaz de se esquivar das piores políticas repressoras ordenadas de Washington e Lima. Embora líderes como Nelson Palomino gostassem de alcançar a estatura de Evo Morales da Bolívia, nenhum conseguiu fazer isso ainda. No entanto, o movimento cocaleiro não vai desaparecer. Há muito em jogo; para os cocaleiros, o que está em jogo não é só uma planta ou um cultivo, mas a sua própria cultura e modo de ser.
Quando indagados sobre o que eles diriam ao governo e ao povo estadunidenses, Palomino estendeu uma mão amiga. "Eu lhes enviaria um cumprimento fraternal e democrático dos cocaleiros. Não somos os seus inimigos, mas seus amigos e irmãos. Mas vocês têm que mudar as suas políticas internacionais. Precisamos de alternativas que reduzam a pobreza, não a aumentem e queremos viver em paz. Também transmitimos à sua terra a esperança de que a nossa cultura não desapareça. A própria idéia faz o nosso sangue gelar".


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