África: Enquanto Se Expande o Cultivo de Maconha, Suazilândia Começa a Pensar no Cânhamo

Deparados com a crise agrícola e um setor irrefreável e crescente de cultivo de maconha, o reino da Suazilândia do sul africano agora está considerando a produção de outra forma da cannabis – o cânhamo. O “Ouro Suazi”, como a maconha produzida localmente é conhecida, é um bem valioso, chegando até $5.000 o meio-quilo no mercado europeu e com os agricultores de cultivos tradicionais como o algodão e a cana-de-açúcar passando por tempos difíceis por causa dos preços em queda, o pequeno cultivo tradicional de maconha de gerações está sendo transformado em um importante cultivo rentável no país economicamente titubeante.

Conhecida no jargão local como “dagga”, a maconha suazilandesa é consumida localmente e exportada a países vizinhos no sul da África, assim como à Europa. De acordo com a Organização das Nações Unidas Contra a Droga e o Crime (UNODC), a produção de maconha no sul da África gerou cerca de 10% dos $142 bilhões do tráfico global anual de maconha. O relatório anual sobre as drogas de 2006 da UNODC chama a Suazilândia de um dos grandes produtores na região. Os outros grandes produtores regionais de maconha são identificados como Lesoto, Malauí, África do Sul, Suazilândia e Tanzânia.

“O pessoal aqui ganha cerca de R80 [quase US$11] por um saco de 10kg de milho quando o vendem no mercado, mas recebem 3.000 [cerca de $405] por um saco de 10 kg de cannabis se puderem vendê-lo a alguém que vai levá-lo para fora da Suazilândia”, disseram os informantes locais ao IRIN News Service da ONU. “Uma pessoa pode cultivar 30 sacos de 10kg em um ano aqui nos montes e usam o dinheiro para comprar vacas, móveis, mandar seus filhos à escola. Estamos em boa situação porque os nossos pais cultivaram dagga, então podemos mandá-los à escola, ter roupas e outros benefícios”.

De acordo com o Institute for Security Studies (ISS) da África do Sul, o cultivo suazilandês de maconha está sendo integrado nas redes criminosas regionais e globais existentes. “Da cannabis que é colhida, a melhor qualidade é destinada para compressão nos blocos de um ou dois quilogramas que são contrabandeados via África do Sul e Moçambique à Europa e ao Reino Unido”, disse um relatório recente do ISS sobre o tráfico de cannabis da Suazilândia. “As redes criminosas nigerianas assumiram a posição dominante no tráfico de cannabis suazilandês durante os últimos anos e os ganhos das vendas deles na Europa são usados para pagar a cocaína comprada na América do Sul, a qual é contrabandeada então à África do Sul e demais lugares”.

A polícia suazilandesa tenta erradicar os cultivos, mas sem muito sucesso. Embora o governo suazilandês receba auxílio antidrogas limitado dos EUA, o apoio mais importante da África do Sul acabou porque a Suazilândia não consegue pagar a parte dela.

Um repórter do IRIN acompanhou o diretor da unidade antidrogas da Suazilândia, o Superintendente Albert Mkhatshwa, em uma operação de busca e destruição em que uma plantação foi queimada. “Isto é só dagga sendo cultivada por alguns aldeões vizinhos”, explicou Mkhatshwa. “Vamos fumigá-la com herbicidas e as plantas estarão mortas em um dia mais ou menos, mas se voltarmos em um mês, provavelmente mais será cultivada no mesmo lugar. As pessoas sabem que não temos os recursos necessários para cobrirmos toda a área, então apostam que não voltaremos logo. As pessoas têm estado cultivando a cannabis erval durante longo tempo na Suazilândia, muito antes que fosse ilegal”, disse.

E se alguns empresários locais e funcionários do governo fizerem o que querem, as pessoas podem cultivar cânhamo também. De acordo com o IRIN, o governo suazilandês vai permitir a pequena produção de cânhamo para ver se tem o potencial de virar um cultivo economicamente viável.

“Com o cânhamo temos uma alternativa ao algodão, que nos decepcionou bastante durante os últimos anos. Tem sido em razão da maconha que achamos difícil conversar sobre o cânhamo, mas isso está mudando e estamos começando a formar a opinião pública a respeito dos seus benefícios”, disse Lufto Dlamini, o Ministro de Empresa e Emprego da Suazilândia. “O governo está considerando uma proposta para cultivar o cânhamo e uma decisão será alcançada até o fim deste mês. Mas, espero que receba a permissão de cultivo para fins de pesquisa e, se provar ser um sucesso, então veremos”, disse ao IRIN.

O Dr. Ben Dlamini, 70, ex-ministro no Ministério da Educação da Suazilãndia, foi um dos primeiros defensores do cânhamo. “A enorme ênfase sobre a cannabis na Suazilândia sempre esteve em fumá-la e ficar doidão, mas se fôssemos cultivar o cânhamo comercialmente, isso solucionaria muitos problemas”, disse ele ao IRIN. “Pode ser usado para combustíveis, produtos têxteis, azeites saudáveis e loções”, apontou. “As pessoas estão tendo a idéia de que o cânhamo pode ser usado para fins que não sejam o fumo, mas o processo de compreensão é muito lento”.

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