Na segunda-feira, o presidente eleito estadunidense Barack Obama se reuniu com o presidente mexicano Felipe Calderón para discutir questões bilaterais de grande importância para os dois países. Além do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês) e das políticas imigratórias, a atual praga do México da violência ligada à proibição recebeu alta prioridade na ordem do dia.

A reunião de Obama e Calderón acontece quando a violência no México está criando cada vez mais preocupação entre analistas de políticas e defesa estadunidenses. No mês passado, o Centro Nacional de Informação sobre as Drogas dos EUA advertiu em sua Avaliação Nacional da Ameaça das Drogas de 2009 que “os cartéis do narcotráfico mexicanos representam a maior ameaça do crime organizado aos Estados Unidos”.
Em um relatório de dezembro à Academia Militar dos EUA em West Point, o ex-secretário antidroga, o general reformado Barry McCaffrey, advertiu dramaticamente que até mesmo o plano de ajuda antidroga de US$ 1.4 bilhão de três anos de duração aprovado pelo Congresso dos EUA e o governo Bush no ano passado sequer dava para o gasto e observou que era somente uma fração diminuta do dinheiro desembolsado nas guerras dos EUA no Iraque e no Afeganistão.
“Há um monte de coisas em jogo no México”, advertiu McCaffrey. “Não podemos nos permitir ter um narcoestado como vizinho. O México não está fazendo frente à criminalidade perigosa – está lutando pela sua sobrevivência contra o narcoterrorismo”.
Lógico, as conseqüências da inação estadunidense a favor do combate às drogas de Calderón seriam nefastas, avisou McCaffrey. “Se o sistema político mexicano não conseguir reduzir a ilegalidade e a violência, isso pode resultar em um aumento de milhões de refugiados cruzando a fronteira com os EUA para escaparem da desgraça interna da violência... e da crueldade e injustiça absurdas de um estado criminoso”.
Nesta semana, os chefes do Estado-Maior dos EUA aderiram. No relatório deles, O ambiente das operações conjuntas em 2008 [The Joint Operating Environment 2008], que examina as ameaças mundiais aos EUA, os chefes do Estado-Maior advertiram que o México era um dos dois países que mais correm o risco de virarem um estado fracassado. O outro era o Paquistão.
“A possibilidade mexicana pode parecer menos provável”, observou o relatório, “porém, o governo, seus políticos, a polícia e a infra-estrutura judicial estão sob agressão e pressão constantes de quadrilhas criminosas e cartéis do narcotráfico. O resultado desse conflito interno causará um impacto de suma importância sobre a estabilidade do estado mexicano. Qualquer degeneração do México em caos exigiria uma resposta estadunidense com base nas graves implicações somente para a segurança nacional”.
Porém, apesar de todas as advertências funestas de perdição, o presidente entrante deu poucas mostras de que faria algo além de permanecer na trajetória. Também não indicou de alguma forma que vai romper radicalmente com as políticas de drogas estadunidenses na fronteira. Obama declarou publicamente que é a favor da Iniciativa Mérida e, na segunda-feira, limitou seus comentários públicos a generalidades.
Ao reparar na “relação extraordinária” entre os EUA e o México, Obama acrescentou: “Não só falamos de segurança ao longo das regiões de fronteira, da maneira por que os Estados Unidos podem ajudar nos trabalhos do México, falamos da imigração e de como podemos ter uma estratégia abrangente e considerada que, enfim, fortaleça os dois países”.
Embora faça sua primeira reunião com o presidente Calderón, um chefe de estado estrangeiro, e prometa renovar a cooperação e apesar do coro de Cassandras que pede maiores providências, os analistas consultados pela Crônica disseram que, dada a enxurrada de problemas graves, nos EUA e no exterior, a que o governo Obama faz frente, o México e seu combate às drogas provavelmente continuarão sendo questões de segunda ordem. A Iniciativa Mérida também não vai ajudar muito, indicaram.
“Obama está ocupado com outras questões prementes”, disse Sanho Tree, analista de políticas de drogas do Institute for Policy Studies, um grupo de estudos de Washington, DC. “Simplesmente não tem nem o espaço nem a vontade de assumir esta outra luta no México”.
Por outro lado, a violência na fronteira que assusta os legisladores estadunidenses é, em boa parte, “um ferimento auto-infligido”, disse Tree. “Misture a alta demanda interna por aqui, a economia da proibição e uma abordagem severa de lei e ordem, agite bem e haverá um coquetel catastrófico. Por falta de aviso é que não foi”, disse.
Além disso, apontou Tree, apesar do alarme cada vez mais sonoro em Washington, há pouco interesse em abrir uma nova frente na fronteira ao sul: “Quem agüenta dar conta disto no momento?” perguntou. “Quem clama por isto além dos atores institucionais que querem proteger seus orçamentos? Há muito cansaço de guerra e susto orçamentário nesta cidade e é possível que deixe algumas aberturas” para a reforma, disse.
“É provável que não saia muita coisa daquela reunião”, disse Tomás Ayuso, analista de questões mexicanas do Conselho de Assuntos Hemisféricos. “Calderón implorava a Obama que colocasse o México entre suas prioridades mais altas, mas, considerando ao que Obama faz frente, o combate às drogas mexicano não se acha entre os pontos mais importantes da agenda dele”.
Contudo, a situação no México é grave e pode piorar, disse Ayuso. “Se não se lidar com isto já, o México realmente pode afundar no caos. Os cartéis das drogas têm um financiamento praticamente ilimitado, seus cofres estão transbordando. A economia clandestina em que atuam prospera, seus empregados estão armados até os dentes e o próximo passo é instaurar um governo clandestino. Para eles, é facílimo influenciar as pessoas. Dizem: ‘Aceitem nossa propina ou matamos você e sua família’”, disse Ayuso. “É bem eficiente”.
“Parece que esta reunião lidou mais com generalidades, mas Obama disse várias vezes durante a campanha que é a favor da Iniciativa Mérida e é muito provável que ela continue durante seu governo”, disse Maureen Meyer, analista de questões mexicanas do Escritório em Washington para Assuntos Latino-Americanos. “Com mais e mais relatórios que ultimamente retratam o México como uma crise de segurança, vemos que o novo governo dos EUA reconhece que isso é uma prioridade e vai continuar cooperando com o México”.
Porém, a crise iminente na fronteira e no México pode proporcionar brechas para a reforma, disse Meyer. “Esperamos ter mais brechas para o debate a respeito das políticas de drogas estadunidenses internacionalmente e o México pode nos dar a oportunidade de examinar o que deu certo e o que não deu certo na região andina e no México também”, disse.
Esse debate pode incluir modificações na Iniciativa Mérida, cujos aspectos mais importantes são o equipamento e o treinamento dos militares e da polícia, disse Meyer. “O Congresso dos EUA reiterou seu apoio à Iniciativa Mérida, mas também temos presenciado a tendência de remeter os fundos para o tráfico de armas rumo ao sul e a demanda por aqui nos EUA. Esperamos que o Congresso também comece a se dissuadir de enviar mais equipes e se convencer de mandar mais apoio a reformas institucionais. Helicópteros não vai causar impacto nenhum sobre os problemas subjacentes do México”, disse.
A violência no México pode ajudar a enfraquecer mais um apoio às políticas de drogas estadunidenses que já vem se desgastando no hemisfério inteiro, disse Ayuso. “Na América Latina, onde acontece a maior parte do sofrimento, muitos países se perguntam se a guerra contra as drogas encabeçada por Washington é a resposta”, disse. “É algo que o próprio Calderón levantou, mas é provável que Obama não vá mudar de opinião por causa disso. Contudo, as vozes se levantam. Mais e mais pessoas querem reavaliar o combate às drogas”.


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