Aguilhoado pela violência interminável ligada à proibição que atormenta o México, e, em particular, Ciudad Juárez, a cidade irmã de El Paso localizada do outro lado do Rio Bravo, na terça-feira, a Câmara Municipal de El Paso aprovou por unanimidade uma resolução que pede, entre outras coisas, “um debate sério” sobre a legalização das drogas como meio de acabar com a violência. Porém, o prefeito John Cook, quem ficou calado durante a reunião da câmara, vetou a resolução na mesma tarde.

Redigida pelo Comitê de Relações Fronteiriças da cidade, a resolução delineou 11 passos que os governos estadunidense e mexicano podem dar para ajudar a “cidade irmã sitiada e acossada” de El Paso. Mas, O’Rourke propôs um 12º passo – que também foi aprovado por unanimidade -, uma emenda que convoca as lideranças nacionais a “apoiar um debate nacional aberto e honesto sobre acabar com a proibição dos entorpecentes”. (Confira o esboço da resolução em inglês sem a emenda aqui.)
“Sabemos que a guerra contra as drogas motiva os chefões do tráfico e nos custa milhões de dólares”, disse O’Rourke a seus colegas vereadores. “Vamos começar um debate nacional honesto que acabe com a proibição dos entorpecentes”, disse, instando-os com sucesso a aprovarem a emenda dele.
“É uma situação terrível que pede uma solução mais dramática do que pedir uma intensificação da repressão”, disse O’Rourke depois da reunião na terça-feira. “O que pedi hoje e o que a câmara aprovou foi instar nossos representantes a ter um diálogo honesto e aberto sobre acabar com a proibição dos entorpecentes”, disse ele ao El Paso Times. “Espero que nosso congressista, Silvestre Reyes, e nossos senadores ouçam em alto e bom som e tenham um debate dificílimo e politicamente desafiador, um tal que precisa acontecer. Não podemos continuar do jeito que as coisas estão; não está dando certo”.
Porém, os representantes federais de El Paso podem não estar ouvindo a petição da câmara em alto e bom som, porque, na terça-feira à tarde, o prefeito Cook lançou seu veto. “Não é realista acreditar que o Congresso dos EUA vá levar a sério qualquer debate amplo sobre a legalização dos entorpecentes”, acrescentou Cook. “Essa postura não é coerente com os padrões comunitários tanto local quanto nacionalmente”.
O veto de Cook depois do acontecido deixou vários vereadores bravos. “Estou muito decepcionada. Disse-lhe isso em pessoa”, disse O’Rourke. “Esta emenda recebeu o apoio unânime da câmara e também dos integrantes do comitê que redigiram a resolução”.
O vereador Steve Ortega de Eastridge/Mid-Valley disse que respeitava a decisão de Cook, mas que discordava dela. “A emenda polêmica simplesmente pede a iniciação de um debate a respeito da proibição dos entorpecentes. Não é a favor da legalização das drogas, mas a põe em discussão”, disse. “Acabar com a violência ligada aos cartéis em Juárez é o maior desafio desta região e justifica um diálogo completo em relação às possíveis soluções”.
“Entendo perfeitamente... é uma conversa muito embaraçosa”, disse a vereadora Susie Byrd de West-Central. “Mas, a razão por que me vejo obrigada a ser a favor da resolução do jeito que foi aprovada é que, seja o que for que estivemos fazendo nos últimos 40 anos, não deu certo”.
Mas, Cook disse ao Times que pedir um debate sobre pôr um fim na proibição desviava a atenção do verdadeiro problema. “Todo o propósito da resolução era chamar a atenção do país para a violência em Juárez”, disse. “Depois que a emendaram, em troca, concentraram-se em legalizar as drogas nos Estados Unidos”.
E o deputado federal Reyes, quem teria sido um dos beneficiários da resolução, disse ao Times que, de qualquer jeito, não a teria recebido de braços abertos. “Legalizar os tipos de drogas que são contrabandeados através da fronteira não é um jeito eficaz de combater a violência no México”, disse. “Não seria a favor de trabalhos no Congresso dos EUA que procurassem fazer isso”.
O’Rourke ficou irritada com a manobra do prefeito nos bastidores. “Entabulamos uma conversa sobre as soluções... conversa esta que recebeu o apoio de todos na câmara”, disse. “O prefeito, apesar de tudo, não disse uma palavra sequer durante a reunião. Tive notícias dele somente quando recebi uma fotocópia de seu veto”.
Agora, O’Rourke tem de manter a coesão entre seus colegas da câmara para a votação da terça-feira. “Minha intenção é pedir que a ponham na agenda da terça-feira, do jeito que foi adotada, para uma reconsideração e veremos qual é o resultado dos votos”, disse O’Rourke na quarta-feira. “Vou respeitar o que os vereadores decidirem. Depois que as bases eleitorais deles lhes falarem ao pé do ouvido, podem ter uma opinião diferente sobre isso”.
Os vereadores podem temer que pedir um debate aberto sobre a legalização das drogas aliene os eleitores antes das eleições vindouras, disse. “Sem dúvida, é mais difícil que os vereadores e o prefeito tomem esta decisão sabendo que vão se apresentar perante o eleitorado em menos de seis meses”.
O debate para saber se sequer se deve falar da reforma radical nas políticas de drogas continua agitando El Paso e a reunião da terça-feira deve ser interessante, no mínimo. Entre os últimos a entrarem na briga estava o ex-prefeito Bill Tilney, quem ocupou o cargo de 1991 a 1993. A postura dele era evidente pelo título do artigo de opinião que escreveu na quarta-feira: “Ex-prefeito a Câmara Municipal: Mantenham-se firmes na resolução sobre as drogas”.
Alguns funcionários eleitores como o prefeito Cook e o deputado Reyes podem querer fechar seus olhos e tapar seus ouvidos, mas tudo o que os cidadãos de El Paso tem a fazer é olhar para outro lado da fronteira e ver como o combate às drogas funciona direito. Mais de 5.000 mexicanos morreram na violência ligada à proibição no ano passado, centenas deles só em Ciudad Juárez. Agora, as pessoas que vivem mais perto da fronteira começam a exigir algo que não seja a mesma coisa de sempre.


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