Imortalizado por “The Wire” [A escuta], a série de sucesso da HBO, o Distrito Oriental de Baltimore é um bairro barra-pesada em uma das cidades mais duras dos EUA. Com uns 45.000 habitantes, quase totalmente negro, gera 20.000 prisões ao ano, em sua grande maioria ligadas às drogas. É um bairro duro, barra-pesada com pobreza generalizada, mercados de drogas a céu aberto, um forte vício em heroína (ou “hair-on” na gíria do Distrito Oriental) e todos os problemas esperados que acompanham esses males.
Durante pouco mais de um ano, o Distrito Oriental foi a ronda de Peter Moskos. O sociólogo educado em Harvard (agora no corpo docente da Faculdade John Jay de Justiça Penal da Universidade da Cidade de Nova Iorque) e interessado pela socialização da polícia entrou na Polícia de Baltimore para virar um “observador participante” da sociologia do policiamento nessa delegacia, o que lhe permitiu alcançar um grau de intimidade com seus colegas oficiais raramente conseguido por acadêmicos forâneos.
Para Moskos e seus leitores, sua estadia nas ruas rudes valeu bastante a pena. Moskos fez um acordo para escrever um livro (e, é de se supor, uma dissertação) a partir de suas experiências e nós, os leitores, somos brindados com um agrado. O Moskos de uniforme – ele trabalhou exclusivamente como policial de ronda – pôde ganhar a confiança e o companheirismo de seus colegas, e, ao fazer isso, conseguiu lançar luz sobre o que é ser policial no combate às drogas.
Imagino que a maioria dos leitores da Crônica da Guerra Contra as Drogas - salvo os integrantes da LEAP - tem poucos conhecimentos sobre, ou empatia para com, os policiais. Afinal de contas, estão na linha de frente do combate às drogas. Além disso, como informa Moskos com base em longas notas, os traficantes e usuários de drogas do Distrito Oriental são capturas relativamente fáceis para os policiais que procurarem gerar estatísticas sobre prisões feitas.
“Nas áreas com alta presença de drogas, não há escassez de infratores da legislação antidroga para prender”, escreve. “A decisão de prender ou não prender vira mais uma questão de opção pessoal e discrição do policial que de qualquer resposta formalizada da polícia à criminalidade ou à segurança pública”.
A polícia não só prende rotineiramente moradores suspeitos do Distrito Oriental – por vadiarem, embora não passe disso -, menospreza-os e despreza seus vícios em drogas quase universalmente. Moskos brilha mesmo ao fazer com que seus camaradas falem aberta e honestamente sobre as condutas deles e, nesse sentido, "Cop in the Hood" é tão revelador quanto perturbador às vezes. Tais condutas podem ser deploráveis, mas também são compreensíveis. Quando tudo o que se vê é o pior da humanidade, é fácil se alienar. Como disse um policial:”Chamadas de emergência não são recebidas para dizer como as coisas vão bem”.
Porém, nem todos os policiais de ronda anseiam por prender infratores da legislação antidroga. Como detalha Moskos, os policiais ficam frustrados com a porta giratória que faz com que os infratores da legislação antidroga detidos na cadeia comarca sejam cuspidos poucas horas depois ou que reduzam as acusações por tráfico de drogas a porte simples porque as prisões estão lotadas e os promotores extenuados. (Moskos observa que o combate às drogas pararia de supetão se os infratores da legislação antidroga exigissem julgamentos com júri uniformemente. Eis um motivo para sindicalizar os usuários de drogas!)
Os policiais não querem ser assistentes sociais, informa Moskos, e não estão interessados nas raízes do consumo de drogas e nos males sociais esperados. Têm interesse, sim, em fazer o trabalho deles com o mínimo de perrengue possível (da rua ou de seus superiores), voltar para casa com segurança toda noite e se aposentar com uma boa pensão. Isso quer dizer que, para muitos policiais, os altos números de prisões por delitos de drogas no início de suas carreiras vão diminuir quando enfrentarem uma combinação de uma sensação de futilidade, horas extras e papelada. Como disse um oficial:
Você sai com a impressão de que dá para causar impacto. Daí se frustra: um traficante com menos de 25 papelotes será considerado consumo pessoal... Ou vai ao julgamento e acreditam nele e em você não. Você é policial e diz que viu algo!... Depois que isso te acontece, você não liga mais. É seu trabalho levá-lo lá [ao tribunal]. Aconteça o que acontecer depois, é problema deles. Não dá para levar este trabalho a sério. As drogas estavam aqui antes de você e vão estar aqui muito tempo depois de você ter partido. Não vá pensar que pode mudar isso. Não quero que você saia daqui achando que todos os que moram neste bairro são gente ruim, que consomem drogas. Muitos policiais começam a bater nas pessoas por pensarem que merecem isso.
Embora Moskos absolutamente não adoce nem o comportamento nem a conduta de seus colegas de trabalho, sem dúvida a reportagem dele ajuda os leitores a chegar a entender um pouco como ficaram desse jeito. "Cop in the Hood" também é útil para entender a trituradora burocrática a que os policiais fazem frente nas grandes delegacias urbanas, onde ficam presos entre pressões vindas de cima por mais prisões, da Corregedoria para que sigam as regras, dos bairros para que limpem a gentalha e dos próprios bairros para que respeitem os direitos civis dos moradores.
Moskos acrescenta a vantagem de não escrever feito acadêmico. "Cop in the Hood" é cativante, até mesmo fascinante, e se explica com franqueza. Sim, Moskos cita a teoria do policiamento, mas faz isso de modo a transformá-la em algo provocativo e não desagradável.
Também inclui um capítulo bem investigado e escrito sobre os males da proibição – leva como subtítulo “A vingança de Al Capone” -, mas, neste caso, isso quase não é necessário. Como bom estudante que dá ouvidos a seu professor de redação, Moskos nos mostrou e, na verdade, nem é preciso nos contar. Contudo, é um capítulo de peso.
Moskos escreve sobre sua experiência como policial de ronda. É um animal diferente do grupo em grande parte auto-eleito de policiais caubóis que acabam nos esquadrões antidrogas e equipes da SWAT. Vou menos com a cara deles, mas esse é outro livro, não este aqui, não.
Os interessados no busílis da ia imposição da legislação antidroga na rua precisa ler este livro. Os estudantes de justiça penal e qualquer um que estiver pensando em virar policial também precisam ler esta obra. E os políticos que aprovam leis que a polícia tem de impor (ou não) também precisar ler este livro, embora provavelmente não vão fazê-lo.


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