América Latina: Aludindo a violações contínuas dos direitos humanos, Anistia Internacional insta EUA a interromper ajuda militar à Colômbia

A Anistia Internacional, o grupo pró-direitos humanos, criticou duramente a Colômbia em um relatório de 94 páginas publicado na terça-feira e instou os EUA a interromper a ajuda militar à Colômbia a menos e até que consiga refrear as matanças de civis e demais abusos contra os direitos humanos.

O governo dos EUA proporcionou mais de $5 bilhões em ajuda à Colômbia, militar em sua grande maioria, desde que o governo Clinton iniciou o Plano Colômbia em 1999. Oferecida a princípio enquanto pacote puramente antidroga, desde 2002 a ajuda estadunidense virou uma missão antientorpecentes e antiterrorismo com vistas, sobretudo, ao exercito guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC, na sigla em espanhol). As FARC se sustentam sozinhas em parte através da participação no setor da coca e da cocaína na Colômbia.

Washington elogiou o presidente colombiano Álvaro Uribe por combater as FARC e a Colômbia presenciou uma diminuição nos seqüestros e o aumento da sensação de segurança em algumas metrópoles. Mas, no relatório, a Anistia questionou as afirmações de Uribe de que, na Colômbia, “estão acontecendo um renascimento irreversível de uma paz relativa” e “uma queda rápida nos índices de violência”.

“A Colômbia continua sendo um país em que milhões de civis, especialmente os que moram fora das grandes cidades e em áreas rurais, continua sendo os mais castigados por este conflito violento e prolongado”, diz o relatório, acrescentando que a “impunidade continua sendo a regra na maioria dos casos de abusos contra os direitos humanos na Colômbia”.

De acordo com o relatório, mais de 70.000 pessoas, a grande maioria civis, foram assassinadas nas duas últimas décadas da guerra de 40 anos entre as FARC e o Estado Colombiano, sendo que há um número de “desaparecidos” na casa dos 15.000 e 30.000 e outros 20.000 seqüestrados ou feitos reféns. A Colômbia também é palco de uma das piores crises de refugiados do mundo, com entre três e quatro milhões de pessoas deslocadas à força.

E, apesar dos protestos de Uribe, para muitos colombianos, as coisas não estão melhorando. De acordo com o relatório, 1.400 civis foram assassinados em 2007, uma alta em relação aos 1.300 no ano anterior. Dos 890 casos em que os assassinos eram conhecidos, os militares colombianos e paramilitares de direita, seus aliados às vezes transformados em inimigos, foram responsáveis por dois terços. Igualmente, o número de “desaparecidos” foi de 190 no ano passado, uma alta em relação aos 180 um ano antes.

Os refugiados internos da Colômbia também não estão em uma situação melhor. Mais de 300.000 foram deslocados no ano passado, um incremento considerável em relação aos 220.000 em 2006. Grande parte do deslocamento e muitas das chacinas aconteceram enquanto os paramilitares tentavam arrancar o controle das plantações de coca das FARC e de seus partidários camponeses.

Além da pressão dos países doadores, algo fundamental para melhorar o quadro dos direitos humanos é fazer com que o governo Uribe admita que é uma guerra civil. Uribe se nega a fazer isso, rotulando, em troca, como “terroristas” os beligerantes das FARC.

“É impossível resolver um problema sem admitir que existe”, disse Marcelo Pollack, pesquisador da Anistia Internacional na Colômbia. “Negando a situação só se consegue condenar mais pessoas a sofrer abusos ou morrer”.

O relatório também descobriu que, apesar da afirmação de Uribe de que a desmobilização dos paramilitares teve sucesso, os paramilitares continuam na ativa e seguem cometendo abusos contra os direitos humanos. De modo perturbador, o relatório concluiu que, no ano anterior, as FARC estiveram criando “alianças estratégicas” com os paramilitares em várias regiões do país enquanto os dois grupos procuram “gerir melhor” a principal fonte de renda, o tráfico de cocaína.

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