América Latina: JIFE faz apelo a Peru e Bolívia para proibirem prática de mascar coca

Em seu Relatório anual referente a 2007 lançado na quarta-feira, a Junta Internacional de Fiscalização dos Entorpecentes fez um apelo aos governos da Bolívia e do Peru para que proibissem a prática de mascar coca e sua venda ou exportação. Os povos indígenas dos Andes vêm mascando coca durante milhares de anos e o apelo provavelmente vai entrar por um ouvido e sair pelo outro na região.

http://www.stopthedrugwar.org/files/coca-leaves-drying-by-highway.jpg
folhas de coca secando à beira da estrada na região do Chapare na Bolívia
A JIFE é uma comissão independente de 23 integrantes que colabora com o Escritório da ONU Contra as Drogas e o Crime (UNODC, na sigla em inglês), a Comissão de Drogas Narcóticas (CND, na sigla em inglês) dele e demais organizações internacionais para monitorar a implementação da série de tratados internacionais que formam a espinha legal do regime da proibição das drogas. Embora seu alcance inclua assegurar ofertas adequadas de drogas oferecidas para usos medicinais e científicos (vide artigo relacionado aqui), gasta a maior parte de seus recursos tentando impedir qualquer desvio do statu quo das políticas de drogas proibicionistas globais. Por exemplo, neste ano, a JIFE criticou de novo o Canadá por autorizar medidas de redução de danos como o injetódromo de Vancouver e a distribuição de “kits para o consumo seguro de crack”.

Em sua revisão da produção de coca e cocaína na América do Sul, a junta apontou que apesar dos trabalhos multibilionários de erradicação na Colômbia, Peru e Bolívia – responsáveis por 50%, 33% e 17% da produção de coca, respectivamente -, a produção de cocaína permanecera estável em entre 800 e 1.000 toneladas ao ano durante a última década. A maneira de enfrentar a produção de cocaína é eliminar a produção de coca, indicou a junta.

“A Junta exorta os Governos da Bolívia e do Peru a cumprirem suas obrigações, adotando medidas para prevenir a venda e o uso de folhas de coca, e as tentativas de exportá-las, com fins que se consideram incompatíveis com os tratados internacionais”, disse o grupo. “A Junta está preocupada com o impacto negativo do aumento da produção da folha de coca e a manufatura de cocaína na região”.

Ela instava os governos a “estabelecerem como delito criminal” o consumo da folha de coca para fazer chá, farinha ou outros produtos. Isso solaparia as tentativas de desenvolver e expandir os mercados para os produtos de coca nos três países.

A reação da Bolívia, em que o presidente e ex-cocaleiro Evo Morales pediu que tirem a coca da lista de substâncias proibidas pelas convenções internacionais sobre as drogas, foi ligeira e negativa. “Na Bolívia, nunca haverá uma política de tolerância zero”, disse Ilder Cejas, porta-voz do vice-ministério de defesa social. “Fazer isso seria pisar nos direitos de milhões de bolivianos para quem a coca é um símbolo da nossa identidade cultural”, disse ele ao Bloomberg News Service na quarta-feira.

Tratar a coca como se fosse uma droga perigosa seria “absurdo”, disse Wade Davis, um autor e botânico que estudou a coca na Colômbia. “A coca é tão vital para os Andes como a Eucaristia o é para os católicos”, disse ele ao serviço de notícias. “Não há provas nem de toxicidade nem de dependência em 4.000 anos de consumo”.

O apelo da JIFE a proibir o consumo de coca também sofreu um ataque mordaz do Transnational Institute, cujo Projeto drogas e democracia procura desenvolver e implementar abordagens pragmáticas de redução de danos a questões globais de drogas. “Ao pedir que os países imponham sanções penais pela distribuição e porte da folha de coca para usos tradicionais, um elemento-chave da cultura andina, a JIFE dá mostras de cegueira e arrogância”, disse Pien Metaal, um pesquisador do TNI que se especializa nos temas da coca. “Chegou a hora de os tratados da ONU se equipararem à realidade e mostrarem alguma sensibilidade cultural”.

A proposta da JIFE na só viola a Declaração da ONU dos direitos dos povos indígenas, também “a perseguição de vários milhões de pessoas na região andino-amazônica”, disse o TNI. “O alvo não são só os consumidores, mas os camponeses cocaleiros”.

“A posição da Junta é absurda”, disse Metaal. “Pretende criminalizar povos inteiros por tradições e costumes populares que não fazem mal e, inclusive, são benéficos”.

Permission to Reprint: This article is licensed under a modified Creative Commons Attribution license.
Looking for the easiest way to join the anti-drug war movement? You've found it!

Post new comment

The content of this field is kept private and will not be shown publicly.
  • Web page addresses and e-mail addresses turn into links automatically.
  • Allowed HTML tags: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd> <img> <i> <blockquote> <p> <address> <pre> <h1> <h2> <h3> <h4> <h5> <h6> <br> <object> <param> <embed> <b>

More information about formatting options

By submitting this form, you accept the Mollom privacy policy.

Drug War Issues

Criminal JusticeAsset Forfeiture, Collateral Sanctions (College Aid, Drug Taxes, Housing, Welfare), Court Rulings, Drug Courts, Due Process, Felony Disenfranchisement, Incarceration, Policing (2011 Drug War Killings, 2012 Drug War Killings, Arrests, Eradication, Informants, Interdiction, Lowest Priority Policies, Police Corruption, Police Raids, Profiling, Search and Seizure, SWAT/Paramilitarization, Task Forces, Undercover Work), Probation or Parole, Prosecution, Reentry/Rehabilitation, Sentencing (Alternatives to Incarceration, Clemency and Pardon, Crack/Powder Cocaine Disparity, Death Penalty, Decriminalization, Drug Free Zones, Mandatory Minimums, Rockefeller Drug Laws, Sentencing Guidelines)CultureArt, Celebrities, Counter-Culture, Music, Poetry/Literature, Television, TheaterDrug UseParaphernalia, ViolenceIntersecting IssuesCollateral Sanctions (College Aid, Drug Taxes, Housing, Welfare), Violence, Border, Budgets/Taxes/Economics, Business, Civil Rights, Driving, Economics, Education (College Aid), Environment, Families, Free Speech, Gun Policy, Human Rights, Immigration, Militarization, Money Laundering, Pregnancy, Privacy (Search and Seizure, Drug Testing), Race, Religion, Sports, Women's IssuesMarijuana PolicyGateway Theory, Hemp, Marijuana -- Personal Use, Marijuana Industry, Medical MarijuanaMedicineMedical Marijuana, Science of Drugs, Under-treatment of PainPublic HealthAddiction, Addiction Treatment (Science of Drugs), Drug Education, Drug Prevention, Drug-Related AIDS/HIV or Hepatitis C, Harm Reduction (Methadone & Other Opiate Maintenance, Needle Exchange, Overdose Prevention, Safe Injection Sites)Source and Transit CountriesAndean Drug War, Coca, Hashish, Mexican Drug War, Opium ProductionSpecific DrugsAlcohol, Ayahuasca, Cocaine (Crack Cocaine), Ecstasy, Heroin, Ibogaine, ketamine, Khat, Marijuana (Gateway Theory, Marijuana -- Personal Use, Medical Marijuana, Hashish), Methamphetamine, Nicotine, Prescription Opiates (Fentanyl, Oxycontin), Psychedelics (LSD, Mescaline, Peyote, Salvia Divinorum), Synthetic Drugs (Mephedrone, Synthetic Cannabinoids)YouthGrade School, Post-Secondary School, Raves, Secondary School