Matéria: Law Enforcement Against Prohibition Agita as Águas na Irlanda

O comandante aposentado da polícia da Flórida e porta-voz da Law Enforcement Against Prohibition (LEAP), Jerry Cameron, conseguiu tornar redondamente o debate sobre as drogas o centro das atenções com a sua aparição na Irlanda na semana passada. O discurso de Cameron na conferência “Repensando a Guerra Contra as Drogas” em Dublin, patrocinada por um trio de grupos irlandeses que trabalham as questões da prisão, as políticas de drogas e a juventude provocou numerosos editoriais e artigos de opinião jornalísticos, preencheu as ondas radiofônicas de papos sobre a legalização e forçou o governo irlandês a responder.

Organizada pelo Irish Penal Reform Trust, a organização beneficente que lida com as drogas, Merchant's Quay e a Union for Improved Services, Communication, and Education (UISCE), um grupo que combina esportes e aprendizagem da língua gaélica, a conferência “Repensando a Guerra Contra as Drogas” reuniu mais de mil políticos, funcionários do governo, reformadores e ativistas irlandeses no dia 28 de Agosto. Com Cameron como orador, a conferência certamente inspirou a reflexão irlandesa sobre as políticas nacionais de drogas.

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Jerry Cameron na conferência de Dublin (cortesia IPRT)
Era exatamente o que o IRPT queria, disse o diretor executivo Rick Lines. “O IRPT não tem nenhuma política formal que apóie a legalização e a descriminalização”, disse ele à Crônica da Guerra Contra as Drogas. “Contudo, partimos da análise de que a descriminalização das drogas é uma força motriz do crescimento das populações penais na Irlanda e é uma causa principal dos altos índices de infecção de HIV e Hepatite C nas prisões. Portanto, examinar as alternativas à criminalização das drogas e as alternativas à prisão para as pessoas que consumem drogas deve ser uma parte central do trabalho realizado pelas organizações de reforma das prisões internacionalmente. Freqüentemente, me dizem nas conferências de redução de danos que as organizações de reforma das prisões nos países deles nem sequer discutem as leis sobre as drogas. Quer isto seja verdade ou não, não tenho certeza, mas espero que não seja”.

Para Lines, a conferência e a atenção que atraiu foram um grande sucesso. “O evento foi bem-sucedido além de todas as nossas esperanças”, disse. “A multidão foi muito maior do que a antecipada – só na sala – assim como a cobertura da imprensa. Contamos 26 veículos diferentes de televisão, rádio e da mídia impressa cobrindo o evento e podemos ter ignorado alguns. Assim, o evento foi um começo muito bem-sucedido para remoldarmos o debate sobre esta questão, que era o que realmente esperávamos conseguir”.

“Esta foi uma das melhores conferências de que participei”, disse Cameron da LEAP à DRCNet. “O pessoal do Irish Penal Reform Trust fez um trabalho maravilhoso de organização e entre aqueles participantes havia um parlamentar e um membro do Parlamento Europeu, o ex-ministro irlandês de drogas, vários membros do sistema de liberdade vigiada, um representante da Garda [a polícia irlandesa] – foi um verdadeiro entrecruzamento de interessados nestas questões. Tenho que dizer que o pessoal do governo irlandês era muito mais aberto que os políticos que encontro nos EUA”.

A atenção da mídia foi tremenda, disse Cameron. “Aparecemos em todo jornal irlandês um dia depois da conferência. Também fiz muito trabalho com as emissoras irlandesas de rádio e televisão”, explicou. “Apareci até em um programa de rádio em que uma mulher que debatia comigo ficou tão enlouquecida que tivemos ouvinte após ouvinte ligando para refutar as posições dela e debater a favor da reforma fundamental”.

De fato, a resposta da mídia foi intensa e principalmente favorável. O Irish Examiner cobriu a conferência e os comentários de Cameron no mesmo dia com uma matéria intitulada "US Police Chief's Warning Over Doomed Drug Policy" [A Advertência do Comandante Estadunidense da Polícia Sobre as Políticas de Drogas Fracassadas], enquanto que o Irish Times publicou um artigo de reação, "Government Considered Legalizing Heroin" [Governo Considerou Legalizar a Heroína] e o Examiner voltava no dia seguinte com outro artigo de reação, "Legalizing Cannabis 'Would Result in State Being Sued'" [Legalizar a Cannabis “Resultaria em Processos Contra o Estado”]. Mas, mesmo esses artigos de reação que contavam com dados do governo os quais explicavam por que as drogas nunca poderiam ser legalizadas mantiveram a discussão da proibição das drogas perante o público irlandês.

Por volta do fim da semana passada, o governo irlandês foi forçado a responder diretamente. O homem encarregado do tratamento químico irlandês, o Ministro de Estado no Departamento de Comunidade, Noel Ahern, chamou os repórteres para dizer-lhes que o governo ia recusar os pedidos de legalização das drogas. “Não vamos nessa direção”, disse, em comentários informados pelos serviços irlandeses de notícias. “E se houver ações no futuro, elas teriam que ser tratadas mundialmente. Um país sozinho não pode agir. A Holanda tentou fazer isso há poucos anos e está retrocedendo bastante porque percebeu que estava atraindo o turismo de drogas”, acrescentou Ahern, entendendo equivocadamente as atuais políticas de drogas holandesas.

“Não teríamos esperado mais nada da resposta do governo”, disse Lines do IRPT. “Mas, mais uma vez, o nosso objetivo principal era somente colocar o debate de verdade e, nesse sentido, tivemos um sucesso impressionante. Para parafrasear um dos oradores no evento, se tivéssemos realizado um fórum público há 20 anos que falasse sobre a troca de seringas, as pessoas teriam pensado que fosse loucura, mas agora é uma política bem-estabelecida”.

“A tempestade na mídia ainda continua”, disse Cameron na terça-feira com uma mescla de surpresa e prazer. “Tem havido mais um par de colunas nos últimos dias, uma que me citou extensamente. A abordagem que tomei teve bons resultados. Disse-lhes que não estava ali para dizer à Irlanda como conduzir os negócios dela, mas para lhes dizer que as políticas estadunidenses de drogas têm sido um fracasso total e para lhes pedir que lucrem com os nossos erros. Eles têm muita gente talentosa que pode inventar soluções irlandesas para problemas irlandeses. O que fizemos nos EUA certamente não deu certo”, disse.

Uma carta aberta no Irish Independent no sábado passado intitulada "The War Isn't Working So Is It Now Time to Consider the Unthinkable and Legalize All Drugs?" [A Guerra Não Está Funcionando, Então Chegou a Hora de Pensar no Impensável e Legalizar as Drogas?] foi o típico comentário da imprensa irlandesa. “Atualmente, há mais criminalidade, doença, morte e dependência do que nunca antes”, escreveu o colunista. “Ele [Cameron] acha, e eu comungo com o ponto de vista dele, que nem sequer um objetivo nem uma meta da ‘guerra contra as drogas’ foi cumprido e que a ‘relegalização das drogas’ é ‘a única maneira de impedir que as drogas caiam nas mãos dos nossos filhos, de fazer espaço para que os infratores violentos cumpram as sentenças completas deles nas nossas prisões e de devolver à imposição da lei a sua função legítima de proteger os nossos cidadãos”.

Um colunista no Irish Examiner opinou similarmente um dia antes em um artigo intitulado "We Are Losing the War on Drugs and Policy Should Be Stood On Its Head" [Estamos Perdendo a Guerra Contra as Drogas e as Políticas Deveriam Ser Postas de Cabeça Para Baixo]. Nesse artigo, o colunista Ryle Dwyer resumiu o argumento de Cameron, acrescentou alguns argumentos seus e concluiu desta forma: “Usar táticas tentadas e testadas que fracassaram tanto é uma causa, não a resposta, dos nossos problemas”.

“O primeiro passo em qualquer esforço para promover a mudança das políticas é popularizar a sua perspectiva e transformá-la de ‘loucura’ em parte legítima do discurso público”, disse Lines do IRPT. “Um evento não conseguirá isto, mas é um começo. A matéria continuou na imprensa dias depois do evento e acho que isto agüenta bem o trabalho contínuo nesta questão, já que talvez tenhamos ajudado a abrir um lugar seguro para que outros levantem argumentos similares”.

Conferência após conferência, carta após carta, programa após programa, aa mensagem antiproibicionista está se difundindo e com a ajuda de grupos como a LEAP e o IRPT, está se difundindo na corrente principal.

Clique aqui para ver o vídeo da LEAP ou faça uma doação de $15 ou mais à DRCNet para pedir uma cópia do DVD.

Permission to Reprint: This article is licensed under a modified Creative Commons Attribution license.
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